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O Agente – Parte 1

O Agente – Parte 1

Atendendo a pedidos, eis o retorno da série de ficção científica entusiasta “O Agente”, criada pelo Dalmo Hernandes em um momento de particular inspiração. Cinco anos depois, esse recomeço está mais para um reboot, revisado e reescrito em alguns momentos para deixar tudo mais coeso. E essa é a primeira parte!

Prólogo

O Futuro de Mad Max não aconteceu

Se o Agente acordasse, em um dia qualquer, e percebesse que havia voltado 100 anos – talvez um pouco mais, talvez um pouco menos – no tempo, só teria uma preocupação: não passar às pessoas a impressão equivocada de que o futuro (no caso, seu presente) havia virado um deserto pós-apocalíptico. Ele conhecia Mad Max muito bem e, por mais que a ideia fosse fascinante, detestaria ser o portador das más notícias. Por sorte, não havia guerras civis ou miséria generalizada. Não nesse sentido.

Quase um século antes, no início dos anos 2020, uma preocupação começou a ganhar força entre a população – especialmente entre as pessoas que lidavam com informação e entretenimento: a perda da memória. Não a memória individual, o arquivo dentro do cérebro de cada pessoa, mas sim a memória coletiva, os registros físicos de todas as produções audiovisuais criadas pela humanidade.

Deteriorando-se com o tempo, milhares de criações artísticas seriam perdidas para sempre caso uma gigantesca iniciativa de backup não fosse realizada. E assim, por volta de 2035, esta ação teve início. Cerca de 85% de tudo — tudo — pôde ser salvo. Mad Max estava no meio. A trilogia original, o elogiado Fury Road, e todas as produções relacionadas.

O Agente gostava bastante de Mad Max, e realmente não conseguia entender seus próprios motivos. Mas, uma coisa era certa: se aquela hipotética viagem no tempo acontecesse, ele seria a primeira pessoa a avisar todos os demais que o futuro de Mad Max não havia acontecido. Sim, os combustíveis fósseis chegaram a níveis baixíssimos e seu uso comercial para alimentar motores a combustão tornou-se inviável. Mas uma alternativa logo surgiu: o combustível sintético. Por ser artificial, ele era mais facilmente manipulável e garantia uma eficiência muito maior.

Foi o bastante para conceder algumas décadas de sobrevida aos motores tradicionais. Mas foi apenas o tempo necessário para que os principais empecilhos para a supremacia dos elétricos fossem superados: infraestrutura, tempo de recarga e autonomia. Uma vez que os carregadores rápidos tornaram-se onipresentes e as baterias ficaram menores, mais leves e mais eficientes, o processo de transição aconteceu. Os portões foram abertos e os elétricos, que aguardavam como cães aguardam o início de uma corrida, estavam livres para dominar a indústria.

Então, veio a Era da Proibição. Tudo foi feito às claras. Reservas naturais foram criadas e o acesso foi vetado a qualquer pessoa. O “pulmão do mundo” fora salvo, mas tornara-se uma zona proibida. Proibidos, também, se tornaram os carros a combustão.

De cara, a sociedade não resistiu. “Ao menos, ainda podemos dirigir”, dizia-se. Isto, porém, durou pouco: não muito tempo depois, o próprio ato de dirigir se tornou tabu e foi completamente proibido.

Colecionadores mobilizaram-se para proteger suas máquinas da caça às bruxas. Gigantescos complexos subterrâneos foram construídos longe das cidades através de assinaturas mensais caras. Muitos carros foram salvos desse jeito e atravessaram os séculos; quem tinha os meios tratou de construir seu bunker particular. Eles tinham a esperança de que, quando o futuro da humanidade estivesse garantido, a proibição seria revogada e os carros seriam libertados de suas prisões. E, claro, isso também virou negócio: alguns complexos particulares forneciam serviços de manutenção permanente por um valor extra, e davam aos clientes a certeza de que, quando pudessem dirigir novamente, seu carro (ou seus carros) estariam esperando, prontos para acelerar outra vez.

Mas não foi o que aconteceu. As normas foram ficando cada vez mais restritas. Nos carros modernos, um sistema conectado à nuvem garantia que, caso alguém assumisse o comando do automóvel fora de uma extrema necessidade, seria punido adequadamente. Qualquer carro incapaz de ter este sistema implementado foi sumariamente banido de circulação. Agentes seriam encarregados de interceptar e capturar quaisquer contraventores usando as mesmas ferramentas.

E os carros? Coleções inteiras ficaram órfãs — seus donos abastados morreram antes de poder perceber que o direito de dirigir não retornaria, nem como hobby de nicho. Empresas que tomavam delas fecharam as portas ou mudaram de ramo abruptamente e sem cerimônia, abandonando sem cerimônia os acervos que estavam sob seus cuidados. Aquelas relíquias de outro tempo se tornaram um tesouro escondido para quem quisesse. Mas, para gente normal, era só um amontoado de metal velho.

O Agente aprendeu tudo isto ainda muito jovem. Primeiro, visitando o zoológico holográfico, onde uma figura 2D de jaleco explicava que a natureza estava salva, mas nunca mais poderíamos ver de perto as belezas do mundo. Depois, estudando o passado por conta própria. Ele tinha a impressão de ser o único que prestava atenção a estas coisas.

Anos mais tarde, já adulto, ele aprenderia que morar na Cidade Branca, em um apartamento pequeno no 83º andar, era por si só um privilégio. Uma cidade imaculadamente limpa, bem organizada e extremamente funcional. A que preço? Para começar, nenhum de seus vizinhos sabia de onde ele tirava seu sustento. Ele não tinha colegas de trabalho. Ao menos, não pessoalmente.

Sua profissão lhe garantia uma licença especial para dirigir – mais ninguém que ele conhecia podia dizer o mesmo. Outro privilégio, e um bem mais interessante.

— Mas, se as pessoas do passado tivessem sido otimistas, talvez elas não tivessem salvo seu futuro — o Agente refletiu em voz alta dentro da cabine. — Talvez eu não estivesse aqui, agora. Talvez fosse melhor deixar que eles acreditassem no futuro de Mad Max.

— Comando não reconhecido.

— Ah, cala essa boca!

Capítulo 1

Combustão noturna

Mas o futuro real era 2112. Era a primeira noite de trabalho depois das férias. A primeira do ano – enfim, o novo século avançava.

Não fazia três minutos que o veículo de patrulha estacionara na locação designada quando o alerta apareceu na HUD de seu visor: um rachador se aproximava. Não que fosse necessário: a luz quente dos faróis halógenos anunciava sua presença de longe.

A viatura já havia se adiantado. O ligeiro aumento nos batimentos cardíacos do Agente era um claro sinal de que uma perseguição iria acontecer. O sistema imediatamente calibrou os pneus, enrijeceu a suspensão e acionou o motor, produzindo um zunido leve. Um som que ele escolheu a dedo na primeira vez em que sentou-se no seu veículo, 16 anos atrás, e nunca mais trocou.

Por alguma razão, enquanto ouvia o zunido elétrico ganhar corpo, ele pensou em “cavalos-vapor”. Ele sabia que os 360 kW de sua viatura equivaliam a quase 500 desses tais cavalos. Ele só havia visto um cavalo uma vez na vida, na área verde protegida da cidade onde havia crescido. Não havia muita coisa lá – apenas um punhado de animais holográficos, um lago artificial e algumas dezenas de árvores reais clonadas. O guia 2D disse que, no passado, os cavalos puxavam caixotes de madeira com rodas para levar as pessoas de um lugar para o outro. Depois, inventaram os carros – que, por força do hábito, continuaram usando “cavalos” para medir sua força. Quando os carros passaram a usar motores elétricos, no início alguns ainda diziam que eles tinham “cavalos”, mas para tentar cortar qualquer associação com os carros de antigamente, o uso dos kW tornou-se obrigatório por fabricantes, revistas e até mesmo pelas pessoas no dia-a-dia. E quando todas as fabricantes de carros viraram uma só – a Fabricante – padronizar o vocabulário ficou ainda mais fácil. Mas ele, um nostálgico silencioso, gostava da métrica antiga.

Ninguém em sã consciência acionava o modo manual de seu veículo por vontade própria, sob o risco de responder por “eventos indesejáveis e potencialmente catastróficos”. A exceção eram os Agentes Rodoviários de Interceptação e Captura. Não havia inteligência artificial capaz de acompanhar o ritmo de um rachador em um carro antigo preparado. Eles eram suicidas.

A abordagem padrão terminava na delegacia, com uma multa de 9.000 créditos e a suspensão da ID de operador por 30 dias. Paga a multa, a maior parte deles voltava a acelerar. Não era um trabalho perigoso. Esses caras não andavam armados, não corriam na cidade e a rodovia era deserta, sem pessoas, animais ou vegetação – só uma linha de energia com postes de madeira.

No comando de seus carros, os rachadores – ou “entusiastas do esporte a motor” – faziam o possível para não serem capturados. Quando o eram, não ofereciam resistência. Alguns pareciam até felizes. Eram sujeitos curiosos. Tinham dinheiro para um hobby tão caro, mas andavam mal vestidos e com as mãos sujas de graxa. Ao mesmo tempo eram joviais, como se nada os pudesse entristecer.

O que mais intrigava o Agente era o barulho. Em vez de um som uniforme e digitalizado dos elétricos, o próprio motor produzia a música mecânica. Rugidos de animais selvagens ou uivos agudos, interrompidos pelos estalos dos canos de descarga. Obsceno, até. E completamente hipnotizante.

Fazia quanto tempo que a viatura estava perseguindo aquele cara? Quarenta minutos, uma hora, talvez? O Agente percebeu que, enfim, estava lado a lado com seu alvo. Abriu a janela, e notou que aquele cara era novo. Devia ter seus 40 anos, barba por fazer, óculos escuros, um cigarro apagado na boca e dirigia um carro vermelho com duas portas e um ronco borbulhante, grave e ensurdecedor.

Assim que percebeu a companhia, o rachador estendeu uma mão esquerda enluvada com o dedo médio em riste, a poucos centímetros do rosto incrédulo do Agente.

— Eu tava te esperando! — gritou o homem, tentando superar o rugido do motor. — Me falaram que tu é bom, parceiro!

No mesmo instante o ronco ficou ainda mais alto e o carro vermelho começou a tomar distância.

— É agora!

A viatura já sabia o que fazer.

“Ativando modo manual em cinco segundos. Quatro segundos…”

As mãos firmaram-se no volante físico que emergiu do painel. Os pés encontraram os pedais de metal.

Três segundos. Dois segundos. Um segundo.

O volante de repente fica pesado. Uma cutucada no acelerador e o veículo responde imediatamente, sem qualquer tipo de filtro. Uma luz vermelha pisca o tempo todo no visor para lembrar o Agente de que ele está por conta própria. Vivo ou morto. É justamente para estes momentos que ele vive. A descarga de adrenalina é inebriante.

O ponto vermelho adiante cresce até se tornar uma traseira esculpida em metal, reluzindo a poucos centímetros do asfalto áspero. Seu carro elétrico de patrulha não tinha um motor a combustão, mas dava para o gasto, acompanhando perfeitamente cada mudança de faixa e esticada.

Novamente o Agente emparelha, saboreando cada instante daquele som fantástico.

— Deve ser um Porsche — dizia para si mesmo, lembrando das revistas secretas que guardava em casa. — Seis cilindros opostos. A ar. Não dá para confundir!

O procedimento padrão seria realizar a manobra PIT e tirar o meliante de ação. Mas o nosso Agente não era muito fã do procedimento padrão. O Porsche – possivelmente um dos últimos com motor a combustão – devia ter uns 150 anos. Estava impecável. Primitivo, simples, quase uma peça de museu, mas com um ronco delicioso.

Dava para perceber que o carro estava no limite. Não foi difícil ultrapassá-lo, dar um cavalo-de-pau e parar na frente dele. O esportivo alemão parou a centímetros do veículo da Lei.

O Agente desceu.

— Porsche, não é?

Entusiasmado, o homem respondeu do cockpit: — 911 Turbo 1976. Deve ser o único que sobrou!

A satisfação estava estampada em seu semblante. Os dois não falaram mais nada — havia um entendimento mútuo que dispensava os protocolos do governo. Depois de alguns instantes admirando as linhas do clássico, o Agente foi até o porta-malas de sua viatura. Lá no fundo, escondido sob os cabos de alta tensão, ficava um galão metálico, pesado e opaco. Dez litros de gasolina sintética pura. Um item contrabandeadíssimo, mantido ali para esse tipo de… emergência.

Com um comando de voz, o Agente mandou a viatura embora. Sem questionar, o veículo manobrou sozinho e iniciou o caminho de volta em silêncio, sumindo na escuridão. Eles estavam oficialmente fora do mapa.

O Agente tinha outro assunto para tratar, e ainda tinha algumas horas até o raiar do dia. Ele jogou o galão no banco do carona do Porsche e olhou para o motorista.

— Vamos embora. O galão é seu. Mas eu dirijo!

Mais um nome para riscar da lista.

Quase sem perceber, o Agente estava de volta à sua cabine de patrulha. A Cidade Branca despontava cinzenta no horizonte enquanto o crepúsculo da madrugada cedia espaço ao amanhecer.

— Comando não reconhecido — respondeu o assistente virtual com sua voz sintetizada quando o Agente murmurou um pensamento desconexo sobre o final daquela noite.

— Fala sério.

Aquela voz robótica irritante era a única coisa que quebrava o silêncio perfeito e o isolamento acústico absoluto da viatura moderna. Era hora de voltar à realidade fria do relatório. Era quase de manhã, e faltavam, literalmente, cinco minutos para o fim do plantão.

Foi quando o silêncio da estrada foi rasgado novamente.

Ao longe, cruzando o deserto em direção ao posto avançado, um som mecânico pesado, ritmado e brutal começava a se fazer audível. Não foi preciso mais que alguns segundos para que o Agente identificasse a arquitetura daquela nova heresia mecânica.

Oito cilindros.

O rush de adrenalina foi imediato. O calafrio característico começou na base da espinha, subiu até o pescoço e esvaiu-se pela ponta dos dedos, fazendo suas mãos buscarem a textura do volante. Era para aquilo que ele vivia.

O plantão ainda não tinha acabado. Já era hora.

Fonte original FlatOut
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