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As rodas douradas da Subaru foram mesmo um erro?

As rodas douradas da Subaru foram mesmo um erro?

Mesmo as pessoas normais, que não vivem o entusiasmo pelo automóvel como a gente vive e não têm gasolina no lugar de hemoglobina correndo nas veias (perdão pelo clichê, eu só gosto muito de falar isso), reconheceriam um Subaru Impreza WRX por sua combinação clássica de carroceria azul e rodas douradas. Em qualquer outro carro talvez ficasse cafona, mas nos esportivos clássicos e modernos da marca — e em suas versões de rali —simplesmente funciona. É um visual icônico e memorável que acaba sendo até mais lembrado que as conquistas da equipe de fábrica. E não tem nada de errado com isso. Na verdade, é um baita cartão de visitas. Ter uma fatia do espectro visual do ser humano irremediavelmente associada a um produto seu é algo que toda empresa devia almejar.

Acontece que parte dessa identidade azul e dourada nunca foi algo que a Subaru de fato quis. Ao contrário: pelo que revelou recentemente um dos caras mais influentes de toda a história do automobilismo, e peça central na história da Subaru no WRC, tudo não passou de uma cag… quer dizer, um acidente de percurso que aconteceu, foi percebido tarde demais e acabou, felizmente, sendo abraçado pela empresa.

Acontece que não foi bem assim.

Quem conta a história é David Richards — um indivíduo que pode encher a boca e dizer: “você talvez não saiba quem eu sou, mas com certeza conhece meu trabalho”. Richards é chefe do grupo Motorsport UK, que edita revistas e sites, organiza eventos e tem documentada em seu acervo boa parte da história do automobilismo. Trata-se de uma referência gigantesca para nós que ganhamos a vida escrevendo sobre carros e corridas, mas também para quem só gosta de acompanhar as sagas de marcas, pilotos equipes.

Mas Richards também é o chefe da Prodrive, empresa de engenharia cujo dedo está em uma variedade absurda de categorias do esporte a motor. Olha só: os Porsche 911 de rali e os 959 que competiram no Dakar foram feitos pela Prodrive. Eles também foram os responsáveis pela British-American Racing (a famosa BAR) na Fórmula 1 entre 2002 e 2004 — em plena era dos V10, e ficaram com o segundo lugar no campeonato de construtores de 2004 graças aos motores Honda e à presença constante de Jenson Button e Takuma Sato no pódio. E, naquele mesmo período, as Ferrari 550 Maranello da Prodrive tiveram desempenho respeitável nas 24 Horas de Le Mans, ficando com o primeiro lugar na categoria LMGTS em 2003 (décimo na classificação geral) e em terceiro no ano seguinte (nona posição na classificação geral).

E, claro, a Prodrive era quem cuidava dos Subaru Impreza da equipe de fábrica no WRC. Eles preparavam os carros, faziam a manutenção e cuidavam de toda a logística. Os títulos de Colin McRae (1995), Richard Burns (2001) e Petter Solberg (2003) no campeonato de pilotos; mais a sequência de títulos da própria Subaru no campeonato de construtores entre 1995 e 1997, são também conquistas deles. Toda a aura mítica em volta dos carros azuis, a própria existência do lendário 22B, a presença dos Subaru de rali em uma infinidade de games de corrida, pôsteres na parede… Tudo isso remonta à empresa cuja base, veja só, não fica em uma metrópole japonesa, mas em Banbury, no norte do condado de Oxfordshire, bem no coração da Inglaterra.

Sendo assim, Richard pode falar com propriedade que as rodas douradas dos Subaru de competição foram meio que um acidente porque, bem, ele estava lá quando aconteceu. Durante um bate-papo promovido recentemente pelo canal The Intercooler, Richards comentou o ocorrido com bastante bom-humor.

“…e, claro, as rodas douradas, todo mundo se lembra das rodas douradas. Nós chegamos lá, o primeiro rali do WRC foi em Monte Carlo em 97… chegamos com o carro novo e a fabricante das rodas era a Speedline, eu acho, da Itália, e eles nos enviaram as rodas.

Era para elas serem cinza-chumbo. O Peter Stevens, designer do carro, ficou horrorizado ao saber que, quando a Speedline enviou as rodas, mandou a cor errada e elas eram todas douradas.

Então nós olhamos para o carro e dissemos: ‘Meu Deus’. Tínhamos alguns compromissos para fazer na rampa de largada e outras coisas, então ficou por isso mesmo. No fim, vencemos o evento com o Piero Liatti, e eu fui até o presidente da Subaru e disse: ‘Olha, muito obrigado por todos os aplausos que recebemos, mas eu realmente preciso pedir desculpas pelas rodas; nós já mandamos todas de volta para serem pintadas de cinza.’

Ele disse: ‘Não, não, não, nós já fizemos toda a publicidade, vocês têm que continuar com as rodas douradas de agora em diante.’ E foi assim que as rodas douradas aconteceram. Não foi planejado, foi uma tremenda de uma trapalhada, para ser bem sincero.”

Tudo resolvido, então, certo? As rodas douradas dos Subaru de rali foram um acidente — algo icônico que nasceu do erro de alguém. Uma bela narrativa. Mas… será que foi exatamente assim?

Claro que, bem, quem sou eu para questionar o chefe da equipe de rali que estava lá e provavelmente passou um bom tempo quebrando a cabeça para tentar resolver?

A questão é que David Richards foi bem claro em mencionar o ano de 1997 e o Rali de Monte Carlo. De fato aquele foi um ano importante para a Prodrive à frente do time da Subaru, mas também para o WRC como um todo, pois marcou a estreia do regulamento dos World Rally Cars. A diferença principal entre os World Rally Cars e o modelo anterior — o Grupo A — era uma minúcia, na verdade: em ambos os casos, os veículos que fossem competir na categoria de topo deveriam usar como base um modelo de rua com pelo menos 2.500 unidades produzidas.

Mas o novo regulamento não exigia que as fabricantes colocassem no mercado um especial de homologação, como acontecia com o Grupo A — o que, no fim das contas, foi o que deu origem a carros icônicos como o Lancia Delta HF Integrale, por exemplo. E o próprio Impreza WRX também nasceu dessa obrigação. No mais, as exigências da organização eram bem parecidas no que dizia respeito às modificações que poderiam ser feitas — em ambas as configurações o padrão era de carros com motor dianteiro turbo de dois litros e tração nas quatro rodas, por exemplo.

Acontece que a Prodrive já cuidava da equipe da Subaru no WRC havia mais tempo: desde 1989, antes mesmo de o primeiro Impreza ser lançado. Na época, o carro usado pela marca no Mundial de Rali era o Subaru RX Turbo, que no ano seguinte deu lugar ao Subary Legacy. Em 1992 foi lançado o primeiro Impreza, que fez sua estreia no WRC em 1993 — quando o Legacy ainda competia.

Se você procurar registros históricos, como fotos e vídeos, dos Subaru que competiram no WRC, vai se dar conta de que já em 1993 os carros da Subaru — tanto os últimos Legacy quanto os primeiros Impreza — começaram a correr com a icônica pintura azul com grafismos amarelos, alusiva ao patrocínio da marca de cigarros State Express 555. A história conta que as primeiras rodas douradas de rali (geralmente feitas pela Speedline ou pela Enkei no Japão) foram escolhidas justamente para ornar com o amarelo-ouro do logotipo dos cigarros, inclusive. Ou seja, o casamento cromático já estava bem consolidado no imaginário do público havia pelo menos quatro anos quando o “erro” de 1997 aconteceu.

Além disso, já em 1996 existiram edições especiais do Subaru Impreza que adotaram as rodas douradas — como o WRX V-Limited e seu irmão, o Type-RA, que até usavam fotos de Colin McRae em cima do pódio no catálogo:

Portanto, em 1997 — quando, segundo David Richards, a Speedline entregou rodas douradas para a Prodrive por engano, na verdade elas já eram usadas por carros de competição e de rua da Subaru de forma bem intencional.

Mas dá para ir mais longe, ainda. Já em 1990 o Subaru Legacy competia no WRC com rodas douradas — porém a pintura sequer trazia a 555 como patrocinadora, e Colin McRae ainda não havia entrado na equipe, que tinha no finlandês Markku Alén seu principal piloto. Em 1991 aconteceu o primeiro contrato com uma fabricante de cigarros: o Grupo Rothmans… que também era dono da marca State Express 555. Àquela altura a Subaru ainda não havia adotado a identidade visual que se tornou icônica e, em vez disso, alternava entre a pintura branca e cor-de-rosa da própria STI e as cores da Rothmans. Fotos da época deixam isso bem claro, exibindo as rodas douradas da Speedline desacompanhadas da carroceria azul com grafismos amarelos.

Antes disso, quando a Prodrive assumiu a equipe de rali da Subaru, em 1989, o carro ainda era o Subaru RX — que geralmente usava rodas brancas ou sem pintura, na cor do metal. Na troca para o Legacy, em 1990, foram adotadas as rodas da Speedline, e a o uso cor dourada provavelmente não tem uma história romântica por trás. Só calhou de combinar quando, a partir de 1993, as cores da 555 foram adotadas.

Então o que aconteceu, exatamente? Pode ser que David Richards esteja só construindo o mito pessoal, contando uma boa história baseada em fatos reais — algo que ele tem todo o direito de fazer, afinal foi ele o cara que colocou a Subaru na elite do WRC. E, ao que parece, a ideia de usar o cinza-chumbo partiu mesmo do próprio Richards, que queria modernizar o visual do Impreza de rali na estreia do novo regulamento. É compreensível: o Impreza WRC 97 não era apenas uma atualização mecânica: ele também estreava uma carroceria widebody agressiva, de duas portas, que rompia com o visual mais pacato do sedã de quatro portas do Grupo A usado até 1996. Para coroar essa nova era musculosa, Stevens e Richards queriam uma identidade visual mais sóbria e técnica. O cinza-chumbo traria essa aura de “arma secreta de engenharia”, enquanto o dourado, na cabeça deles, talvez já parecesse coisa do passado.

Só que, aparentemente, alguém dentro da Speedline discordava, pois fica implícito nas palavras do chefe da Prodrive que o erro aconteceu do lado de lá. Se foi proposital ou não, jamais saberemos — mas ainda bem que aconteceu. O azul e dourado é tão parte do legado da Prodrive e da Subaru no WRC quanto as vitórias de Solberg, Burns e McRae.

No fim das contas, a história de David Richards parece um caso clássico de “Efeito Mandela”, ou apenas uma confusão — totalmente compreensível — de quem comandava dezenas de projetos ao mesmo tempo. Ou só um bom exemplo do significado de storytelling em publicidade. Então, o erro da Speedline em Monte Carlo provavelmente aconteceu mesmo, mas a trapalhada não foi a origem das rodas douradas, e sim uma tentativa frustrada de matá-las.

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Fonte original FlatOut
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