Joey Dunlop, o grande herói de Isle of Man
Para os entusiastas dos automóveis, é possível que o sobrenome Dunlop seja mais fortemente associado à Dunlop Tyres, fabricante de pneus fundada pelo escocês John Boyd Dunlop. Se você toca algum instrumento, talvez lembre imediatamente das palhetas e pedais de efeito fabricados por outra empresa, a americana Jim Dunlop Manufacturing.
Agora, se o que você curte é velocidade sobre duas rodas, o sobrenome Dunlop só pode significar uma coisa: Joey Dunlop, saudado por muitos como o maior piloto de motos que já pisou neste planeta, com uma coleção de feitos na mais desafiadora prova do motociclismo: o Tourist Trophy de Isle of Man, onde Dunlop é considerado um herói.
A 115ª edição do Tourist Trophy começa exatamente na data de hoje, 25 de maio de 2026. Joey Dunlop já não é mais o maior vencedor da história — seu sobrinho, Michael Dunlop, agora é o detentor desse título com 33 vitórias. E ele segue como um dos favoritos para esse ano.
Mas não se trata de destronar, e sim de suceder, de forma legítima, o legado do tio. Que, mesmo superado, continua sendo um dos mais impressionantes não só do motociclismo, mas do esporte a motor de forma geral. Apostamos que, caso a gente perguntasse a Michael Dunlop qual é o maior de todos os tempos em Isle of Man, ele diria o nome de Joey Dunlop sem pensar duas vezes.
Working-class hero
Mais do que apenas um “herói”, Joey Dunlop é constantemente descrito como “herói da classe trabalhadora”. A expressão é comumente usada no inglês para referir-se a uma pessoa de origem humilde que conquistou sucesso e reconhecimento com esforço e talento — e que, mais importante, nunca deixou suas raízes de lado. E isso realmente se aplica a Dunlop. Nascido em 25 de fevereiro de 1952 na vila de Armoy, no norte da Irlanda do Norte, filho de Willie e May Dunlop, Joey vivia em uma casa simples, que sequer tinha água encanada. Seu pai era mecânico e, sempre que podia, Joey o ajudava na oficina — até começar a trabalhar em uma plantação de batatas.
Boa parte do que ele ganhava ajudava a colocar comida na mesa, mas o jovem Joey Dunlop sempre dava um jeito de guardar alguma coisinha. E foi economizando, pouco a pouco, esses trocados da colheita que Joey comprou sua primeira moto. Ele logo se juntou a dois amigos, Mervyn Robinson e Frank Kennedy, e os quatro formaram a Armoy Armada, uma pequena equipe para disputar corridas locais. Eles raramente podiam competir ao mesmo tempo, pois não tinham praticamente nenhum dinheiro e sempre precisavam dividir peças das motos. E a experiência na oficina do pai garantiu que Joey garantiu que Joey não precisasse da ajuda de ninguém para fuçar nelas.
Logo de cara o rapaz demonstrava um imenso talento na condução. Ele ficou conhecido por sua velocidade, claro, mas sua principal qualidade era a absoluta precisão com a qual pilotava, de forma suave, sem riscos desnecessários ou exibicionismo, e inacreditavelmente rápido.
Apesar disso, sua carreira demorou a decolar. Foi só na segunda metade dos anos 70, quando Joey já estava na casa dos vinte-e-tantos anos — o que pode ser considerado tarde no mundo das corridas —, que ele conseguiu um contrato de patrocínio com a empresa de transportes Rea Haulage, de Belfast, a capital da Irlanda do Norte. John Rea, fundador da companhia, era amigo da família, e seus dois filhos também viriam a se tornar pilotos. Ele viu potencial em Joey e garantiu que ele conseguisse se inscrever com uma Yamaha TZ 750 no Tourist Trophy de 1977.
A geografia favoreceu Joey Dunlop neste aspecto – não tivesse ele nascido onde nasceu, talvez jamais tivesse a oportunidade de correr na pequena ilha entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. Isle of Man tem um dos circuitos mais perigosos do planeta: Snaefell Mountain Course, um trajeto com mais de 60 km e 219 curvas que compreende diversas estradas da ilha. Há muita variação de relevo, trechos onde as áreas de escape são os muros e portões das casas, e segmentos onde as motos mais velozes passam dos 330 km/h.
Joey Dunlop já havia participado do Tourist Trophy no ano anterior, em quatro categorias diferentes, mas sua melhor colocação havia sido um 16º lugar na classe Junior TT. Em 1977, porém, ele conseguiu a vitória com sua Yamaha 750.
Após a conquista, Joey Dunlop foi procurado pela Honda para integrar sua equipe de fábrica e de lá não saiu. Foi com as motos da Honda que ele construiu sua carreira e sua reputação. No Tourist Trophy, Joey Dunlop conseguiu notoriedade por seus três hat-tricks (vitórias em três categorias diferentes na mesma competição) em 1985, 1988 e 2000 — e só foi superado pelo sobrinho Michael Dunlop em 2024.
A especialidade de Joey Dunlop eram as corridas em circuitos de rua. Além do Tourist Trophy, ele também venceu 24 vezes o Grande Prêmio de Ulster, prova realizada em estradas fechadas nos arredores de Belfast, entre 1979 e 1999; e conquistou 13 vitórias na North West 200, outra prova disputada em vias públicas no norte da Irlanda do Norte, em um circuito de 14 km conhecido como “O Triângulo”.
Na década de 1980, quando já era reconhecido como um astro do motociclismo, Joey Dunlop sofreu seu primeiro acidente sério — que, ironicamente, não foi de moto, mas de navio. Ele e outros 13 pilotos (além de suas motos) atravessavam o mar em direção a Isle of Man quando a embarcação atingiu uma fenda de corais e afundou. Todos os pilotos e a tripulação foram salvos pela equipe de resgate da cidade de Portaferry, as motos foram recuperadas e a competição aconteceu normalmente.
Ao longo de sua carreira, mesmo com a fama e o prestígio cada vez maiores, Joey Dunlop sempre fez questão de seguir sua vida normal na Irlanda do Norte. Durante os eventos ele geralmente deixava de lado as reservas em hotéis caros que a Honda lhe concedia para ficar acampado na área dedicada aos mecânicos e outros membros da equipe, fazendo ajustes nas motos por conta própria e misturando-se ao público, tirando fotos e distribuindo autógrafos.
Quando as câmeras eram da TV, porém, Dunlop mostrava-se visivelmente desconfortável e tímido, praticamente alheio à legião de fãs que acompanhava seu trabalho.
E, humanamente, ele também era bastante supersticioso – sempre usava uma camiseta vermelha sob o macacão, sempre calçava as luvas na mesma ordem e sempre usava o mesmo capacete amarelo.
Joey Dunlop não fazia questão alguma de alardear suas ações de caridade, mas em 1996 ele foi condecorado com Ordem do Império Britânico (Order of the British Empire, ou simplesmente OBE) por seus serviços humanitários no Leste Europeu. Por muitos anos, o próprio Dunlop levou pessoalmente comida e suprimentos a orfanatos na Romênia, na Albânia e na Bósnia.
Sua morte, quatro anos depois, aos 48 anos de idade, foi uma terrível surpresa.
O motociclismo é um esporte perigoso, obviamente, mas até o momento o ano de Dunlop havia sido excelente. Em maio ele havia vencido o TT de Isle of Man em três categorias diferentes (seu terceiro hat-trick), e naturalmente estava bem animado.
Era o dia 2 de julho. Dunlop estava participando de um evento em Tallinn, na Estônia, disputado nas estradas entre as cidades de Prita, Kose e Kloostrimetsa. Ele já havia vencido corridas nas categorias de 600 e 700 cm³, e naquele dia estava correndo na 125 cm³.
Foi sua última corrida. Ao passar sobre uma poça de água na pista molhada, Dunlop desequilibrou-se e bateu contra algumas árvores na beira da pista. Ele morreu na hora.
A tragédia serviu para ilustrar a importância de Joey Dunlop para a comunidade do motociclismo – mais de 50.000 pessoas foram acompanhar seu funeral, que foi transmitido ao vivo pela TV irlandesa. Em sua homenagem, o troféu para o piloto melhor sucedido no Tourist Trophy foi batizado “Joey Dunlop Cup”.
O mais doloroso, porém, é que a partida de Joey Dunlop foi apenas a primeira de uma sequência implacável de perdas que se abateram sobre a família. Em 2008, seu irmão mais novo, Robert Dunlop, morreu em um acidente durante os treinos para a North West 200. Dez anos depois, em 2018, o sobrinho de Joey, William Dunlop (filho de Robert), perdeu a vida nos treinos da Skerries 100, na Irlanda do Norte.
Da esquerda para a direita: Robert, Michael e William DunlopO circuito de Snaeffel era praticamente o quintal da família Dunlop — Robert registrou cinco vitórias no TT entre 1989 e 1998, enquanto seu filho William, que competiu em 12 edições, subiu ao pódio por três anos consecutivos, de 2012 a 2014, na categoria Supersport. Isso só deixa tudo mais melancólico, mas também demonstra que o sucesso no TT só pode estar no sangue desses caras.
Um sucessor digno
Qualquer outra dinastia teria recolhido as ferramentas e fechado as portas da oficina para sempre. O clã Dunlop, moldado na rigidez da classe trabalhadora de Armoy, respondeu da única forma que conhecia: acelerando.
E é aqui que a história dá uma volta completa. Irmão de William e sobrinho de Joey, Michael Dunlop assumiu o manto da família com uma pilotagem agressiva, visceral e um foco mental quase sobrenatural. Se Joey era a precisão cirúrgica e a suavidade, Michael tornou-se a força bruta, dominando as feras de mais de 200 cv com uma fúria impressionante.
Já faz quase 20 anos que Michael Dunlop estreou no TT, em 2007. Dois anos depois, na edição de 2009, ele já clamava sua primeira vitória — na categoria Supersport, no comando de uma Yamaha de 600cc. De lá para cá, os anos de 2010 e 2015 foram os únicos nos quais ele não ficou em primeiro em nenhuma categoria. E, mesmo assim, subiu ao pódio.
No fim da década passada, Michael acumulava 18 vitórias e via o recorde do tio como um horizonte distante. Mas a história foi reescrita de forma avassaladora: no TT de 2024, ele superou as lendárias 26 vitórias de Joey e, após mais um domínio implacável no ano passado, ele desembarca na Ilha com a estratosférica marca de 33 vitórias no Tourist Trophy. Mais do que isso: desafiando o tempo, em 2025 ele conquistou seu 51º pódio e quebrou o recorde da categoria Supertwin, cravando 198,03 km/h de velocidade média em sua última volta pelo circuito. E não tem intenção de parar — beirando os 40 anos de idade, ele ainda é um dos favoritos para vencer em Manx.
Na verdade, curiosamente, seu desempenho parece ter melhorado com o tempo. No ano passado, seus piores resultados foram dois terceiros lugares nas duas etapas da Superstock (que, como o nome diz, é reservada a motocicletas quase originais de fábrica, usando pneus de rua — nada de slicks).
O garoto que cresceu vendo o tio ser ovacionado em Manx tornou-se, por direito, por estatística e com folga, o maior piloto de motos que já cruzou a linha de chegada do Snaeffel Mountain Course. Superar Joey Dunlop, no seu caso, é muito mais um sinal de respeito — ele está longe de ser um usurpador. Michael Dunlop é o sucessor legítimo de seu tio. O capacete amarelo de Joey Dunlop continua eternizado na estátua que vigia o circuito em Bungalow, e o legado vivo da Armoy Armada segue vivo e respirando. E não dá sinais de que vá parar tão cedo.
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