Notícias

Justiça Federal obriga governo restaurar cidade da Ford no Pará

Justiça Federal obriga governo restaurar cidade da Ford no Pará

Notícias Justiça Federal obriga governo restaurar cidade da Ford no Pará

Construída por Henry Ford na Amazônia para produzir borracha, a vila foi abandonada há 80 anos

Por Cristiane Barreto 5 jun 2026, 14h05  (Amit Evron/CC BY-SA 3.0/Reprodução) Priorizar nos meus resultados Google

A Justiça Federal atendeu aos pedidos do Ministério Público Federal (MPF) e condenou a União, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o estado do Pará e o município de Aveiro (PA) a promoverem a recuperação e a conservação do conjunto urbano, arquitetônico e paisagístico de Fordlândia.

Fundada em 1927 por Henry Ford, a cidade-projeto no interior do Pará nasceu como uma vila industrial para a produção de borracha. Entre os componentes usados na fabricação dos automóveis da época, a borracha era o único sobre o qual o empresário não tinha controle direto. A dependência de fornecedores ingleses e holandeses motivou a criação da estrutura na Amazônia.

– (Paralaxis/Getty Images)

A construção seguiu os moldes urbanísticos norte-americanos. Por estar isolada, a vila contava com moradias, piscina comunitária, hospitais, escolas, lojas, restaurantes e um salão de entretenimento com projeção de filmes de Hollywood. O objetivo era manter os trabalhadores no local. Os problemas, no entanto, começaram antes da inauguração: o terreno comprado pelo fundador da Ford era rochoso, sujeito a alagamentos e com solo pobre em nutrientes. Ainda assim, Fordlândia saiu do papel.

A princípio, a produção de borracha teve início. O conflito cultural, porém, inviabilizou a operação. A gestão tentou impor um ritmo baseado em valores industriais americanos, o que incluía dieta rigorosa, proibição de bebidas alcoólicas e jornada de trabalho das 9h às 17h — ignorando as exigências físicas impostas pelo forte calor amazônico.

– (Ed Vebell/Getty Images)

Ao longo dos 17 anos de funcionamento, Fordlândia registrou diversas revoltas. A mais grave ocorreu em dezembro de 1930, quando a equipe de direção precisou fugir de barco e solicitar à companhia aérea Pan Am o envio de aviões com militares brasileiros para conter os trabalhadores na área.

A rotatividade na gerência também prejudicou o projeto. Estrangeiros, os executivos não estavam adaptados ao clima tropical e frequentemente sofriam colapsos de saúde. Do ponto de vista agrícola, a plantação foi severamente atingida por pragas e doenças endêmicas que atacaram as árvores.

– (Joel Auerbach/Getty Images)

O fracasso logístico e financeiro fez os norte-americanos deixarem a Amazônia em 1945. A vila foi devolvida ao governo brasileiro, que, segundo o MPF, manteve-se omisso quanto à preservação do complexo desde então. A Justiça argumenta que, embora a União seja a proprietária primária, a Constituição estabelece que a proteção do patrimônio histórico é um dever de todas as esferas federativas.

Um Acordo de Preservação chegou a ser assinado em 2010 pelo governo do Pará e pela prefeitura de Aveiro. No entanto, o texto aponta que nenhuma das partes adotou medidas concretas para evitar a degradação do espaço.

Agora, a Justiça Federal estabeleceu um cronograma rigoroso que deverá ser cumprido pelos condenados. Em até 90 dias, sob a coordenação do Iphan, os órgãos públicos precisarão apresentar um diagnóstico atualizado sobre o estado de conservação de imóveis específicos. A lista inclui o antigo Hospital de Fordlândia (já em ruínas), os galpões industriais, o Armazém do Porto, as casas da Vila Americana, o convento, a escola Henry Ford, o Cine Patinha (que sofreu colapso recente de cobertura) e as vilas operárias.

– (Joel Auerbach/Getty Images)

Em 180 dias, os entes terão que elaborar um Plano de Recuperação e Conservação. O documento deve definir ações para cada imóvel, estipular um cronograma físico-financeiro, dividir as responsabilidades, indicar as fontes de recursos e aplicar medidas emergenciais para estruturas com risco iminente de desabamento. As obras precisarão começar em até 30 dias após a aprovação judicial.

A elaboração dessas estratégias envolverá a comunidade local e a Defensoria Pública da União (DPU). O órgão foi incluído no processo para atuar na defesa dos moradores atuais e debater a regularização das residências localizadas nas vilas operárias.

– (The Washington Post/Getty Images)

Caso haja descumprimento dos prazos, a Justiça fixou multa diária de R$ 10.000 para a União e para o Iphan, além de R$ 5.000 para o governo estadual e para a prefeitura de Aveiro.

O MPF tenta o tombamento do local desde 1990, mas o pedido foi negado pelo Iphan no início de 2024. O juiz responsável pela sentença declarou, contudo, que o dever de preservação independe de um tombamento oficial. Segundo a decisão, provas, perícias e uma inspeção judicial feita em 2021 comprovam o inquestionável valor histórico, cultural e arquitetônico de Fordlândia.

Fonte original Quatro Rodas
Voltar para Notícias

Leia também

Ver todas