O Agente – Parte 2
Capítulo 2
Crown Victoria GT500
Era um som familiar, se aproximando rapidamente. Ótimo, porque o Agente já estava ficando sem paciência.
O sistema de entretenimento da viatura não era o mais avançado — faltava a Projeção Tridimensional de Altíssima Fidelidade (UHFTP) na tela, mas isto não fazia diferença para os filmes de quase 200 anos que o Agente assistia para passar o tempo. Na verdade, ele preferia consumir esse tipo de coisa da mesma forma que se fazia na época. Era mais autêntico. O Agente era um refém da nostalgia, afinal. Melhorias artificiais definitivamente não caíam bem nos clássicos. Demorou demais para que a humanidade percebesse isso.
Ele ficou mais que satisfeito ao reconhecer aquele ronco. Aqueles oito cilindros que, trabalhando no limite, interromperam sem cerimônia seus devaneios. Se fosse para passar a madrugada toda assistindo filmes e pensando na vida, que fosse em seu confortável, embora pequeno, apartamento na Cidade Branca.
O sistema da viatura detectou a costumeira escalada nos batimentos de seu condutor e fez os ajustes de costume — nível de potência no máximo, sistemas de recarga auxiliares a postos, suspensão mais rígida e o sistema de ativo de arrefecimento dos freios ligado o tempo todo. E o Agente também fez seus próprios ajustes, também como de costume: desligou a música, colocou as mãos no volante, aguçou os ouvidos e tentou adivinhar qual era a montaria escolhida pelo contraventor.
O ronco grave acompanhado de um chiado estridente deixava claro que aqueles oito cilindros não respiravam sozinhos. Havia um supercharger ali. O virabrequim era plano — não havia aquela rouquidão característica dos clássicos dos antigos Estados Unidos, daquela que era descrita como “a era de ouro” da indústria nas corroídas páginas das revistas. A cada troca de marcha, ouvia-se o eco distante de pneus destracionando no asfalto. Um som real, que o simulador digital de marchas (um presentinho da oficina da sede que não estava em nenhuma outra viatura, ao menos até onde o Agente sabia) da sua viatura até tentava imitar, mas nunca com a mesma crueza. A viatura era perfeita demais para errar a aderência daquele jeito.
Então, seguido de uma nuvem de poeira — a estação de chuva artificial do quadrante estava programada para começar só dali a dois meses — o vulto negro se fez visível. Na estrada sem curvas, ele parecia implacável, indestrutível, quase ameaçador. Chegava cada vez mais perto, mantendo o giro baixo, até que seu condutor avistou a silhueta inconfundível da viatura. E então, disparou.
A menos de 100 metros de distância, o barulho era ensurdecedor. E maravilhoso.
O Agente conhecia aquela engenharia. Quase um século antes, as três extintas fabricantes da velha Detroit estavam às voltas com os últimos muscle cars a combustão pura — mas só um deles tinha aquela voz, aquele timbre mais ardido, quase italiano, obtido graças a um virabrequim plano. Era o Ford Mustang, em uma versão especial que veio a ser a mais potente de sua história. Shelby GT500 era seu nome e, depois dele, não houve outro parecido. Houve outros Mustang, mas eles eram carros completamente diferentes. Não usavam mais combustível, nem natural, nem sintético, nem qualquer outro. Foi o começo do fim.
Mas, 100 anos depois, lá estava o Agente, prestes a entrar em ação. E, no calor do dever, ele fez o que sempre fazia: começou a fantasiar, por uns breves segundos. Se imaginou não como Agente Rodoviário de Interceptação e Captura, mas sim como um policial, um patrulheiro do século 21 que entendia tanto de mecânica quanto de pilotagem e estava pronto para o primeiro shakedown depois dos ajustes clandestinos que havia feito com as próprias mãos em seu carro. As mãos no volante estariam em “10 para as 2”, o pé direito afundado no acelerador, o pé esquerdo pronto para escorregar para o lado a qualquer momento, a primeira marcha no jeito. Sensações que ele conhecia bem — pois sempre levava os rachadores que capturava até a delegacia em seus próprios carros — mas que não faziam parte do seu trabalho.
Bem, não deveriam fazer. Mas ele dava seu jeitinho.
E, dali a poucos minutos, ele estaria fazendo o mesmo com um GT500. Aquele seria um bom dia!
Mas algo estranho o arrancou do devaneio quando o vulto negro cruzou a viatura sem qualquer timidez. A voz era de um GT500. As formas, não.
O capô era baixo, quadrado. Os faróis eram retangulares, largos, feitos de vidro real. Tinha quatro portas e uma silhueta arredondada que seria elegante se não estivesse paramentada com um quebra-mato na frente, dois faróis auxiliares, rodas de aço estampado e luzes estroboscópicas vermelhas e azuis apagadas atrás da grade.
Ao longe ele não havia percebido, mas o breve instante no qual o rachador passou diante da viatura — sem qualquer timidez — foi suficiente para ver um carro totalmente diferente. O capô era baixo, quadrado, da mesma altura que a traseira. Os faróis eram retangulares, largos, feitos de vidro de verdade. Quatro portas. Seria elegante, se não tivesse um quebra-mato na frente, faróis auxiliares, pneus borrachudos e rodas de aço estampado — além de luzes vermelhas e azuis atrás da grade.
— Puta que pariu! — Expressão antiga que nunca perdera o sentido.
Décadas de evolução na indústria permitiram que o Agente estivesse sentado em um dos veículos mais avançados que existiam — paradoxalmente, um dos poucos que se podia conduzir por conta própria sem arrumar problema com a lei. E ali, bem diante de seus olhos, estava seu mais famoso ancestral: um Ford Crown Victoria — um carro que ele sempre admirou e sempre sonhou em ver de perto. O carro que, em parte, lhe inspirou ser o que era.
E agora, ele deveria persegui-lo. Antes, porém, precisaria de uns segundos para processar o que havia acabado de acontecer. E para dar ao rachador a falsa impressão de que conseguiria escapar sem problemas.
A verdade era que, por mais fantásticos que fossem os carros usados pelos rachadores, a viatura do Agente era um carro mais eficiente, mais veloz, mais seguro e mais confiável. E os próprios rachadores sabiam disto. Eles tinham total noção de que aquelas disputas já começavam perdidas. A multa de 9.000 créditos, um valor alto para a maior parte dos cidadãos, sequer fazia cócegas nos bolsos desses caras. Até corria, entre os outros agentes do quadrante, o boato de que os rachadores competiam para ver quem gastava mais com a Justiça ao fim do mês.
Àquela altura o sistema de localização da viatura já varria os arredores em um raio de centenas de quilômetros. Um único ponto na tela movia-se rapidamente. “Alvo tomando distância”, avisa a voz sintetizada do assistente eletrônico. “Recomenda-se o início da interceptação.”
O Agente não enxergava aquele homem, naquele carro, como um alvo. Em momento algum cogitou seguir o procedimento padrão, com manobra PIT, arma apontada para o rosto do cara, talvez um ou dois tabefes e um passeio no compartimento de contenção. Ao contrário — se havia um carro que ele queria ver inteiro, perfeito, e depois experimentar, era aquele Crown Vic.
— É agora! — o computador conhecia aquele comando e ativou o modo manual imediatamente. Hora do show.
Como ele havia previsto, não levou mais que dez minutos para que a traseira do Ford aparecesse à sua frente. Seria menos tempo, se aquele não fosse o motor a gasolina mais potente já feito pela fabricante em seu tempo — mais de 700 cv — ou se o dono do Crown Vic tivesse mantido o câmbio de dupla embreagem. Pelas som trocas de marcha, porém, era evidente que aquele carro tinha três pedais. O bom e velho Tremec T6060.
Enquanto seguia pela via de mão única, com os primeiros raios de sol tingindo a vegetação escassa de uma bonita mistura de lilás com laranja, o Agente se perguntou se não tinha alguns parafusos a menos. Seu repertório de marcas, modelos, motores, câmbios, personagens importantes na história do automóvel, definitivamente não era algo normal em pleno ano de 2112. Nenhum de seus colegas se importava tanto assim com a forma, o motor, a cor ou o ano do carro usado pelos fugitivos. Claro, era preciso ter uma noção mínima pelos ossos do ofício, mas no fim do dia aquilo era um dever, uma profissão, e não um divertimento. Pagava-se bem pelo suposto risco envolvido, e só. Ninguém ficava empolgado como ele ao topar com um carro raro, bem montado e bonito. Quem ligava para aquelas máquinas centenárias, brutas e arcaicas? Quem precisava aprender nomes, decorar códigos, ouvir histórias e contar anedotas sobre veículos barulhentos, pesados e perigosos, tão ruins que eram proibidos?
Qual era o agente que precisava saber, de cabeça, que aquele carro preto era o mais famoso antepassado das viaturas que todo agente usava? E que, no lugar de seu motor original — um velho e confiável V8 aspirado de bloco pequeno — estava um dos últimos grandes motores a combustão produzidos pela humanidade? Nenhum. Mas ele sabia. E precisava ver aquilo de perto.
Mas as coisas não aconteceram da forma como o Agente esperava.
O rachador em seu Crown Victoria GT500 não ganhava velocidade. Estava passeando. Desviava calmamente, sem alvoroço ou exibicionismo dos escombros que ocasionalmente encontrava na pista, alinhava o carro e seguia seu caminho. De vez em quando metia o pé na embreagem e acelerava, o ronco complexo do V8 supercharged se espalhando pelo ar sem resistência e dissipando-se de uma forma que quase dava para ver. Era como se as ondas sonoras empurrassem o cascalho, o mato, os restos de animais pelo deserto. Era como se quisesse chamar a atenção do Agente. Como se soubesse exatamente quem ele era e que, de todos os agentes daquele quadrante, era o único que não iria se aproveitar da situação para ficar mais perto de fechar a cota do mês sem se esforçar muito.
“Venha comigo, vou te mostrar uma coisa”, o Agente quase podia ouvir a mensagem implícita. E decidiu morder a isca.
Olhou para trás e viu, acomodado em seu suporte improvisado, o galão de dez litros, cheio de combustível sintético pronto para o “empréstimo” que aconteceria logo menos. Sendo um guardião da Lei, o Agente tinha certas facilidades quando queria quebrá-la. Cliente importante, metade do preço por litro — em troca, só precisava oferecer cobertura e proteção.
O Crown Vic à frente tinha se estabilizado em velocidade de cruzeiro, ali entre os 130 e 150 km/h. A viatura, completamente sob controle do Agente, vinha acompanhando a poucos metros de distância. O ronco sintetizado já estava desativado havia tempo e, com a janela aberta, ele podia saborear cada nota de um ronco de verdade, legítimo, rico, profundo e muito, muito alto. Um dia, anos e anos e anos e anos atrás, quando as autoridades ordenavam, aquele carro teve um catalisador. Naquele momento, quando não havia mais carros e muito menos leis de emissões ou poluição sonora, a música mecânica jorrava livremente pelos quatro canos e envolvia cada célula dos tímpanos do Agente.
E então, ela parou. Ironicamente, a pane seca — novamente, algo que a maioria das pessoas sequer podia conceber — aconteceu bem em frente a um posto de combustível. Um lugar abandonado havia tanto tempo que já começava a ser reclamado pela natureza.
Antes que pudesse fazer um gesto, o Agente ouviu:
— Eu sei quem você é, meu irmão. É agora que a gente dá aquela voltinha comigo no banco do carona? Beleza. Você é meu convidado.
O Agente já estava acostumado com aquelas tentativas toscas de improvisar frases de efeito, todas invariavelmente falhas. Mas ele pouco se importava — o Crown Vic estava ali, a metros de distância, e ele tinha um galão de combustível pronto para oferecer como pagamento pela chance de dar umas aceleradas. O rapaz, pelo menos dez anos mais novo e dez quilos mais magro, parecia ingênuo. Mas percebeu o brilho no olhar do Agente no mesmo instante.
— Olha aí, esse é o bisavô da sua viatura. Bem diferente do 930, não? Mas esse aqui anda mais, pode ter certeza.
Definitivamente não era um blefe. Aqueles caras se conheciam, e falavam sobre ele. Mas era melhor fingir que isto não era uma surpresa.
— É, sou eu, sim. Cala a boca aí e entra no carro.
— Olha, cara…
— Agente.
— Olha, Agente. Eu sei que você gosta disto aqui. Eu sei agora o seu plano é me levar até a delegacia com essa gasolina e me fazer torrar créditos que sinceramente não vão fazer falta nenhuma. E eu também sei que amanhã você vai estar lá de novo, esperando por outro rachador enquanto meu carro é levado para a desintegração. Mas, sabe… eu acho isso um desperdício.
Aquele discurso clichê era chato, mas também intrigante.
— Prossiga.
— Eu sei que a gente não vai estar nem perto da delegacia quando essa gasolina acabar. Sei como todo o seu esquema funciona. A sua viatura vai seguir a gente até onde der e, depois, vai rebocar o meu carro até o pátio.
O rapaz ficou quieto, foi até o capô e abriu as presilhas. Um bafo quente subiu, e lá estava o V8. No topo, o supercharger com uma cobra gravada na carcaça.
— Cinco ponto dois, 770 cavalos, quase 90 quilos de torque. Eu não fiz mais nada nele, instalei do jeito que achei. Só troquei o câmbio. Agora é de seis marchas, manual, mas eu não sei quanto tempo mais vai aguentar. Ainda tá fazendo zero a 100 em uns quatro segundos, 400 metros em dez segundos e pouquinho, brincando. Nem precisei fazer muita coisa, o cofre já é bem grandão. Pena que vocês vão destruir. Mas…
O Agente anuiu. Estava gostando daquele papo.
— Mas eu tenho uma ideia bem melhor. Você me dá esse galão e me deixa ir embora, antes eu te mostro uma coisa que você jamais ia conseguir ver de outro jeito. A sua viatura consegue seguir a gente, não consegue?
O Agente sempre soube que aqueles caras não eram mesmo perigosos. Eles eram poucos, não machucavam ninguém, e não ofereciam qualquer tipo de resistência. Aquele ali era um pouco mais folgado, claro, mas tinha uma proposta difícil de recusar.
E não era como se alguém fosse ficar sabendo.
— Dez litros. Pegar ou largar, e se não quiser eu tenho mais o que fazer.
O rachador só deu uma gargalhada. Entrou no Crown Vic, ligou o motor, deu três aceleradas, sentou no banco do carona e, irritante, riu de novo. A “pane seca”, evidentemente, era uma farsa.
— Calma, meu querido Agente. Tem muito mais de onde veio essa gasolina. E você não vai se arrepender.
Atendendo a pedidos, eis o retorno da série de ficção científica entusiasta “O Agente”, criada pelo Dalmo Hernandes em um momento de particular inspiração. Cinco anos depois, esse recomeço está mais para um reboot, revisado e reescrito em alguns momentos para deixar tudo mais coeso. Confira as partes anteriores nos links abaixo!
The story so far…
O Agente – Parte 1
