O Agente – Parte 3
Capítulo 3
O ninho dos ratos do deserto
Os portões se abriram lentamente – eram pesados, e mesmo a força dos dois homens quase não deu conta.
Mas, sozinho, o fato de aquele portão realmente se abrir já era surpresa o suficiente. Se recordava-se corretamente, o Agente já havia passado por ali ao menos duas vezes, a serviço. Esforçou-se para encontrar um motivo para tal negligência – e fracassou. Seus números eram os melhores do quadrante (para quem passava mais tempo na viatura do que no próprio apartamento, estranho seria se não fossem), e uma apreensão como aquela certamente lhe garantiria um bônus generoso ao fim do mês. Talvez até uma promoção e, com ela, a chance de abandonar as patrulhas e trabalhar para o resto da vida atrás de uma mesa. “Deveríamos ter mais oficiais como você”, diria o chefe da divisão. “Você não é tão idiota quanto os outros. Eu já estou me para me aposentar, e…”
O devaneio acabou abruptamente quando o Agente se deu conta de onde estava.
O pequeno galpão destoava completamente da paisagem árida e pós-apocalíptica que o cercava. Um oásis de civilização no meio do fim do mundo. A decoração era exatamente igual à de qualquer outra acomodação individual padronizada da cidade branca – um flat uma cama grande, uma escrivaninha com um computador, uma pequena cozinha e o banheiro. Imediatamente o Agente se sentiu em casa.
Só havia um detalhe: o leve aroma de combustível, quase imperceptível, porém presente a todo momento.
A porta pesada, que havia dado tanto trabalho para abrir, se fechou sozinha atrás dele e rapidamente camuflou-se atrás da parede eletrônica, deixando apenas a superfície imaculadamente branca à vista. Era como um breve choque de realidade. O dono daquele Crown Victoria com motor de Mustang GT500 era, no fim das contas, um cara normal, que vivia uma vida normal em uma acomodação normal. Só gostava de acelerar veículos proibidos de tempos em tempos.
Era um pouco decepcionante, até.
– Gostou do meu canto? É aqui que eu fico praticamente o tempo todo. Olha, não preciso de mais nada. Já faz umas três semanas que eu não volto para a cidade, e já faz alguns anos que eu construí essa fortaleza aqui e até agora ninguém me achou. Nem você, meu irmão! Aliás, como foi que você nunca me achou?
Falsa modéstia de merda. Era óbvio que o rapaz havia investido uma boa quantia para esconder seu “canto”.
O Agente não queria demonstrar o quanto estava curioso. Ele ainda era a Lei por ali – a qualquer momento ele poderia algemar o rachador, levá-lo de volta até a viatura, entregá-lo à Divisão de Interceptação e Captura e esperar o extra cair na conta. Então, era bom que a perda de tempo valesse a pena.
– Corta essa, cara. Você não veio aqui para me mostrar o seu quarto. Tá com pressa de tomar prejuízo?
– Tenha paciência, “senhor policial”. Saca só isso aqui.
O rachador foi até a escrivaninha e apertou um botão oculto sob o tampo. A porta se abriu novamente, e o Agente lutou com todas as forças contra o instinto de voar sobre o meliante, imobilizá-lo e colocá-lo na viatura. O veículo já devia estar estacionado do lado de fora àquela altura e o rapaz era esquálido. Não levaria dois minutos.
Mas ele ainda estava grato demais pelo passeio no Crown Vic GT500 para fazer isso. Iria ao menos ver onde aquilo tudo iria parar.
– Só um minutiiinho! — declarou, com uma voz afetada e milimetricamente irritante.
O rapaz entrou no Crown Vic e ligou o motor, que acendeu com um rugido. O Agente não tinha percebido, mas o espaço entre os móveis da acomodação tinha o tamanho exato para acomodar o carro, que segundos depois estava perfeitamente encaixado no apartamento/galpão/garagem.
– Então você mora na sua garagem. Uau. Bom, já chega, eu tenho mais o que fazer e você também deve ter. Vamos acabar logo com isso.
As palavras secas do Agente davam seu melhor para esconder a gratidão que ele sentia pelas últimas duas horas ao volante do sedã. Mas ele não tinha certeza se soara convincente.
– É, eu sei. O meu pai deve estar me esperando agora, eu estou atrasado para o fechamento do mês. E ainda vou chegar com mais uma multa!
“Típico”, pensou o Agente. “Trabalha na empresa do papai. Acha que tudo é brincadeira.”
– Entra aí!
Meio a contragosto, o Agente fez como seu prisioneiro dizia. Abriu a porta do Crown Vic, sentou no banco do carona e esperou.
Outro botão, escondido sob o porta-luvas, foi alcançado pelo jovem piloto do deserto. O Agente olhou pelo vidro e viu tudo subindo – na verdade, o carro estava em cima de uma plataforma poucos centímetros mais longa e mais larga, e descia para o subsolo. Mas seu tamanho era apenas uns poucos centímetros maior que o carro. Para descer junto do carro, só entrando nele.
O Agente ouviu um leve estalido e sentiu a plataforma tocar o chão. Deviam estar a uns 200 metros da superfície quando outro portão – automático, dessa vez – se abriu à frente do Crown Vic. O rachador deu mais duas aceleradas fortes, engatou a primeira marcha e adentrou o novo recinto.
A operação toda levou cinco minutos. E a pequena decepção que o Agente havia sentido ao descobrir um flat pós-moderno oculto sob um portão enferrujado dissipou-se completamente quando as luzes se acenderam.
O teto era alto – tinha seus três metros de altura. O piso era quadriculado, preto e branco, sujo de óleo, graxa e gasolina. Não se via a cor das paredes – apenas tudo o que estava pendurado nelas. Incontáveis prateleiras com peças de motor, capacetes, indumentária de corrida e alguns troféus que seguramente tinham mais de um século. Pôsteres decoravam o espaço que sobrava – fotos de carros antigos, corridas de automóveis e pessoas de macacão e boné, todos de cores diferentes e decorados com os logos de marcas que ele não conhecia. Eram rostos familiares, que ele certamente já havia visto em suas longas sessões de pesquisa na madrugada.
O Agente se considerava um historiador por hobby. Todo seu tempo livre era dedicado a conhecer as fabricantes do passado, assistir gravações antigas de competições automobilísticas e ler a biografia dos personagens mais relevantes para a história do automóvel. Um conhecimento vasto, porém inútil na sociedade de 2112, que abominava qualquer tipo de atividade que, remotamente, pudesse trazer de volta a ideia de dirigir por diversão.
Mas essas coisa nunca precisaram fazer sentido.
E ainda havia mais para ver. Muito mais. O lugar devia ter pelo menos meio quilômetro quadrado – espaço suficiente para tudo o que uma boa oficina mecânica de antigamente precisava ter: elevador, dinamômetro e até um guincho hidráulico. Várias bancadas de ferramentas, pneus empilhados, galões de combustível e óleo de várias especificações, estantes cheias de manuais e revistas e, claro: um calendário de vários anos atrás com a foto de uma mulher belíssima, pouco vestida e muito provocativa, pendurado bem ao lado do elevador.
E também havia espaço para os carros – o Crown Vic estava ali, mas ainda caberiam mais uns três ou quatro. E talvez até sua viatura pudesse ser enfiada ali, mesmo que nada daquilo tivesse serventia para trabalhar no veículo. A manutenção era feita pela própria Fabricante, pois só eles tinham acesso aos motores elétricos, ao gerador bioquímico de eletricidade e aos sistemas eletrônicos patenteados. O Agente já havia tentado violar os lacres inúmeras vezes e já havia sido advertido por isso. Se não fosse tão bom no que fazia, provavelmente já teria tomado uma suspensão. No começo, a ideia de um sistema proprietário de acesso restrito parecia absurda, mas depois as pessoas se acostumaram a não entender nada sobre os dispositivos que usavam todos os dias. O Agente achava isso deprimente, mas já tinha se acostumado.
O que ele ainda não conseguia suportar direito era o odor forte de combustível. Delicioso – sequer parecia o combustível sintético que ele carregava no compartimento traseiro da viatura. Mas definitivamente não era o combustível fóssil de antigamente, com seus hidrocarbonetos voláteis. Aquilo ali tinha um retrogosto metálico, quase alcalino, que deixava um gosto de cobre no fundo da garganta. Algo que lembrava vagamente o cheiro das subestações de alta tensão da Cidade Branca, mas concentrado em estado líquido. E fazia a cabeça doer.
– Sim, eu já tô aqui. E eu trouxe alguém que o pessoal vai gostar de conhecer.
Absorto em seus pensamentos, absorvendo a visão de tudo aquilo ao seu redor, e aborrecido pela dor de cabeça, o Agente nem havia percebido que o rachador estava em uma ligação.
– Que merda é essa?
– Opa, acho que já tá na hora de você relaxar. Eu já avisei o velho que vou perder a reunião e falei sobre a multa. Depois eu lido com ele. O pessoal já tá chegando e você não vai querer perder.
“Quer saber? Foda-se”, pensou o Agente. “Na pior das hipóteses vai todo mundo pra Divisão e eu posso tirar o resto do mês para descansar.”
– Dez minutos. Depois, a gente vai pra Div… pra delegacia, você paga a multa e cada um vai cuidar da sua vida.
– Tá bom, tá bom. Eu já rodei antes, no quadrante vizinho. Mas o outro Agente que me pegou era um filho da puta e mandou o meu carro pro ferro-velho. Você precisava ver, era um Diablo roxo igualzinho aquele da foto! Noventa e quatro, V12, cê precisava ver. Nem tive coragem de fuçar nele, mal passava dos 300 mas, porra, eu tenho certeza que era o último do mundo, literalmente. Enfim, eu sei como é, sei que é o seu trabalho, mas prometo que depois disso a gente nunca mais se vê.
“Filho da puta mesmo”, o agente falou para si. Mas podia ter sido qualquer um – ele não conhecia um Agente, fora ele próprio, que não odiasse os carros. Sádicos. Alguns até faziam questão de se juntar para assistir a destruição mensal de apreensões. O Diablo provavelmente já tinha sido pulverizado e descartado. O salário era bom, mas para alguns Agentes, o verdadeiro pagamento era a chance de mandar o cubo residual para o endereço de cada rachador. Alguns até escreviam “seu carro” em um dos lados, só de gozação. Mas que graça aquilo tinha?
– Vamo lá, eles já tão chegando.
Enquanto se perguntava por que diabos o rachador falava daquele jeito, o Agente entrou novamente no Crown Victoria, que seguiu por um portão que se abria na outra extremidade da oficina. Do outro lado, um caminho subterrâneo certamente levava até outro local secreto, e o Agente já não se importava mais com as horas, com a operação, com a captura, com a bonificação. Só queria entender o que era aquilo, quem eram aquelas pessoas e, bem, por que ainda não tinha feito o que era pago para fazer.
O ronco do motor saía pelas quatro ponteiras de escape, reverberava nas paredes do túnel e era devolvido com muito mais intensidade aos ouvidos do Agente, que deleitava-se com cada nota, cada timbre, cada decibel que atingia seus tímpanos. O carro fazia barulho, vibrava, tremia, chacoalhava. Tinha cheiro, textura. Tinha alma. Uma maldita máquina que queimava combustível e produzia gases nocivos e, ao lado de milhões de outras máquinas iguais, foi responsável por quase acabar com a raça humana. Ou ao menos era isso que ele havia ouvido na escola, quando sequer sonhava em tornar-se um Agente.
Mas o Agente não aprendeu a lição. Em casa, através da Rede, ele tinha descoberto que aquelas máquinas supostamente terríveis e perigosas e condenáveis um dia tinham sido algo completamente diferente. Elas já foram objetos de desejo, símbolos de status e prestígio, ferramentas úteis, essenciais, onipresentes. Já tiveram seu lugar de honra entre as grandes conquistas da humanidade.
E, como se não bastasse, tinham potencial para proporcionar imensa alegria a quem estivesse em seu comando. Bastava olhar para o rapaz esquálido e desgrenhado no banco ao lado, que sequer estava acelerando com vontade, mas parecia desfrutar cada segundo ao volante com imensa alegria.
“Quando foi que a gente perdeu isso?”, perguntou-se mentalmente. O carro era só uma máquina. Um objeto inanimado e, sem ninguém para conduzi-lo, inerte, inofensivo e incapaz de qualquer coisa. Boa ou ruim. Então, de repente, decidiu-se que era hora de acabar com ele. Por quê?
Talvez escondida na página 4.000 dos resultados de busca, uma resposta esperasse para ser descoberta. O tipo de coisa que não precisava de esforço algum para ser refutada como teoria da conspiração barata, alimentada por desocupados que aparentemente não estavam satisfeitos em viver uma vida limpa, eficiente e prática na Cidade Branca ou nas outras metrópoles com cara de oásis espalhadas pelo continente, pelo mundo.
A escola dizia que os elétricos salvaram o planeta limpo. Mas o Agente sabia que a verdade raramente é bonita assim.
Mas ele sequer teve tempo de terminar seu monólogo interno – quando deu por si, o Crown Vic já estava do lado de fora. O portão, alojado entre as pedras na beira da estrada, desapareceu. “Tem muitos hologramas aqui. Esse cara deve ter muita grana”, especulou.
– Olha aí! Eu nunca canso dessa porra! Desce, aí, cê vai perder!
O Agente relevou e consentiu – queria saber de que “porra” era aquela, e a curiosidade incomodava mais que a falta de respeito. E então, exatamente como nas primeiras horas da manhã, uma rastro de poeira começou a se formar no horizonte. Depois, eram três. E o ronco uníssono de vários cilindros explodindo por dentro começou a ficar cada vez mais próximo.
De óculos escuros e braços cruzados, o Agente observava atento a dança dos três delinquentes. Ele ainda não conseguia discernir as formas dos veículos, mas reconhecia cada um de seus sons.
Surpreso, ele percebeu que sua viatura estava logo ali – provavelmente guiada pelo rastreador. Quando ficava muito tempo sem receber comandos ou identificar possíveis ameaças, a viatura ia sozinha até o local mais próximo possível de seu Agente designado. Através do controlador remoto preso a seu pulso, o Agente deu ao veículo a ordem para assumir o modo stealth (que, ironicamente, usava a mesma tecnologia holográfica patenteada que a oficina secreta). Não queria acabar com a festa antes da hora.
– Bom, eu acho que você vai querer se apresentar, né. Ou levar todo mundo em cana.
– Em cana?
– É, pro xilindró. Xadrez, prisão, cadeia, gaiola. Pra delegacia.
– Não. Pra vocês eu sou o Agente. E ninguém vai preso. Não hoje.
A volta para casa, para o apartamento estéril na Cidade Branca, depois daquele plantão, foi uma experiência exponencialmente mais melancólica.
“Solidão”. Uma palavra carregada de conotação negativa, claro, mas para quem está sempre acostumado a estar sozinho o tempo todo, acaba virando meio que um vício. O Agente estava acostumado a agir sozinho, e sempre que o chefe mencionava que ele devia encontrar um parceiro, um calafrio subia por sua espinha e alguma variação do seguinte diálogo acontecia:
– Eu sei, eu sei, você prefere a carreira solo, e eu entendo. Mas você sabe que, no que dependesse do pessoal lá de cima, esse negócio de “cavaleiro solitário” acabava, não é?
– E você sabe que ninguém aguenta, não é?
– Pois é. Ninguém TE aguenta. Sempre soturno, quieto o tempo inteiro. Você trabalha pra c*ralho, é o meu melhor homem. Então é melhor não abusar, porque você não treinou ninguém para ficar no teu lugar.
– Isso é problema seu, não meu.
Não falar nada, ou só o mínimo necessário, não foi algo que o Agente escolheu e não demandava esforço. Foi simplesmente como ele cresceu – seu pai, sempre ocupado para garantir o tal “padrão de vida elevado e sofisticado” do qual vivia falando, não foi o mais próximo do mundo. E, se ele resolvesse pegar a viatura para fazer-lhe uma visita, provavelmente não o encontraria em casa. E o escritório… ele jamais se atreveria a aparecer de repente no escritório.
Por sorte, sua vida era corrida o bastante para impedir reuniões de família. Holograma? Nem pensar. Só uma ligação tradicional, a cada um ou dois meses. “Telefones foram feitos para comunicação verbal, e não visual. Você tá vivo e inteiro? Ótimo. Eu estou bem atarefado hoje. A gente se fala qualquer dia. Até.”
A interação era tão engessada quanto a descrição do cargo do velho: Diretor de Logística de Expurgos de Lítio e Pesquisa de Ciclo Fechado da Fabricante. O homem responsável por assinar os memorandos que garantem a “pegada zero” da cidade nos relatórios públicos. O Agente cresceu vendo aquela figura distante que chamava de pai bitolado em gráficos de “dissipação de resíduos em áreas não-mapeadas”. Na época, parecia só burocracia; agora, ganha um significado sinistro.
Mas engana-se quem pensa que o Agente era um cara depressivo por causa disso. O “padrão de vida elevado e sofisticado” de que seu pai tanto falava lhe garantiu boa educação e entretenimento suficientes para manter sua mente ocupada demais para sentir qualquer ausência. Ele sabia, no fim das contas, que seu pai só queria o melhor para o filho – e, do jeito dele, foi exatamente isso que o Agente teve. Acesso ilimitado à Rede, todo o conhecimento do mundo a um comando de voz. E sem propagandas.
Mas talvez o alto executivo da Fabricante não imaginasse que, em vez de um sucessor, criaria um rebelde – um filho que decidiu virar agente rodoviário de interceptação e captura só para ficar perto dos malditos carros.
A veia solitária do Agente começou a pulsar quando ele se deu conta de que os três arruaceiros estavam a poucos metros de distância, com uma nuvem de poeira crescendo atrás deles e o ronco ensurdecedor de seus veículos. De certa forma sua viatura o protegia do contato humano até o momento em que este era inevitável – a hora de algemar o rachador recém-capturado, recitar seus direitos e empurrá-lo para dentro do veículo. Depois, acabou. Dali para a Divisão, da Divisão para casa. Sozinho.
Acontece que a ideia insuportável de ter que conversar com gente tinha menos importância que a chance de, enfim, colocar as mãos naquelas máquinas.
– Puta que pariu, Carlos! Não acredito que tu rodou!
O sujeito alto, de moicano verde e jaqueta de couro, tinha uma risada insuportável. Dirigia um Volkswagen – provavelmente o único carro de antigamente que nem só os rachadores e agentes conheciam. Aquela era uma praga que havia se espalhado pelo mundo todo no século 20, e o Agente sinceramente não entendia como um carro ruim e pesado, encomendado por um lunático, havia feito tanto sucesso. Mas era mesmo simpático, ele precisava admitir.
– “Carlos”.
Era isso que o Agente considerava “gozação”.
– Pois é, esse aí gosta de me importunar – voltou-se para o punk – E eu não rodei! Tá me vendo algemado, ô desgraçado?
– É, tu fez um amigo.
– Cala a boca.
“É, cala a boca e dá um motivo só para dirigir essa merda.”
O cara do moicano provavelmente era telepata.
– A sua sorte é que você nunca trombou comigo por aí…
– Agente. Meu nome não é da tua conta.
– A sua sorte é que você nunca trombou comigo por aí, Agente. Eu vi a tua cara quando olhou pro meu Fusca, mas não vai pensando que tá original, não. Olha aí.
O dono do Fusca conduziu o Agente até a parte de trás do carro, levantou o capô, e ali só se via a carcaça do câmbio.
– O motor tá ali no meio. Abre a porta aí!
Pelo visto todo mundo era folgado naquela rodinha. Por outro lado, era interessante notar que, aparentemente, todos ali sabiam exatamente quem era aquela figura de cara amarrada e óculos escuros que estava fazendo um esforço sobre-humano para esconder a empolgação.
Ao abrir a porta para espiar o que havia atrás dos bancos, uma surpresa: um boxer, sim. Quatro cilindros, longitudinal. Mas o fato de ser central-traseiro não era a única coisa esquisita – aquele motor tinha um turbocompressor, radiadores e um intercooler no topo. Nele, três letras vermelhas pintadas saltavam aos olhos: “STI”.
– Você ia arrumar briga andando com um motor Subaru no Fusca. Quem gostava desse carro iria te massacrar.
– Eu sei, e também sei de um pessoal que gostava mesmo do Fusca que ia adorar esse carrinho. Cada um fazia do seu jeito, diziam que o Fusca era uma tela em branco. Se eu tivesse nascido naquela época faria igualzinho. E acho que seria até mais fácil!
Ou o punk do cabelo verde era um cara muito educado, ou o Agente havia sido educado demais. Fez uma nota mental para lembrar de se conter.
Mas o carro estava mesmo uma graça, mesmo com a pintura branca coberta de poeira vermelha. Por fora não havia muitas modificações – quem não prestasse atenção nas entradas de ar cuidadosamente adaptadas à frente dos para-lamas traseiros jamais desconfiaria do arranjo mecânico: apenas rodas mais largas (de três raios) suspensão mais baixa, pneus gordos para segurar nas curvas e uma marota saída de escape deslocada para o lado. O cara definitivamente tinha bom gosto. E era mesmo educado. Mesmo que fedesse feito um gambá.
– Esse aí é um 2.0, inteirinho forjado por dentro, oito bicos, um Garrett 4094. E eu descolei esse motor praticamente pronto, só dei um tapinha na injeção. Até o câmbio tava junto com ele – sequencial, seis marchas, e tração nas quatro rodas. Subaru, né?
– O Peter tem bom gosto, mesmo. Só precisa de um banho, e também precisa lembrar que a gente não usa nossos nomes verdadeiros por aqui. Que nem você!
– Tá certo, Carlos. E você precisa lembrar que eu não sou seu amigo.
Com o ronco do boxer devidamente identificado, faltavam dois. O Fusca foi uma surpresa tão grande que o Agente sequer havia reparado nos outros dois elementos.
Um deles estava encostado em seu carro, e definitivamente não parecia estar em seu próprio ambiente. Ao contrário de Peter – e de qualquer outro rachador, diga-se – ele estava impecavelmente limpo e com certeza havia tomado um bom banho antes de sair de casa. Um terno risca-de-giz de corte perfeitamente ajustado ao corpo, um fedora bem ajustado na cabeça, sapatos lustrosos, luvas de couro nas mãos. A única coisa que quebrava a aparência bem ajustada do sujeito era uma bituca de cigarro apagada que parecia colada no canto direito de sua boca – que foi prontamente cuspida, em um gesto que contrastava grandemente com seus demais maneirismos, quando ele começou a falar.
– Me perdoe! Pego isso já – disse o homem, que tinha o rosto de um rapaz de 20 anos e o olhar de um senhor de 60, ao lembrar que estava falando com uma autoridade – É um prazer imenso poder finalmente conhecer o senhor! Eu me chamo Jesse, mas com acento no último “e”.
– “Jessé”, então.
– Sim, mas como eu precisava de um codinome, só tirei o acento. O Charlie aqui, por alguma razão, costuma tomar as decisões no grupo e acha que não podemos revelar nossas identidades.
– Você sabe bem por quê! Se não fosse por mim, nenhum de vocês estaria por aqui hoje! – exclamou o dono do Crown Vic.
– Foi UMA fiança. Uma!
– E se não fosse por ela você teria conhecido o nosso amigo…
– Eu não sou seu amigo!
– … o Agente aqui.
– Está certo – conformou-se Jesse – Mas, me diga, que tal?
Era curioso como esses caras buscavam a aprovação do Agente. Síndrome de Estocolmo antecipada? De qualquer forma, antes mesmo de saber o que seu elegante interlocutor havia feito no carro, ele já havia aprovado seu carro. Como seria diferente?
O Agente conhecia bem aquele carro – era um de seus favoritos: um Nissan Skyline GT-R legítimo, sem qualquer modificação aparente. Não que fosse necessário. A pintura roxa fazia juz à reputação mencionada textos antigos, exibindo reflexos esverdeados dependendo de como a luz forte do sol do deserto atingia a carroceria.
– Esse é o maior orgulho da minha vida. Por fora está igualzinho ao que era quando novo, no distante ano de 1999. — declarou em tom teatral. Vou abrir o capô para você dar uma olhadinha.
A polidez do tal Jesse era mesmo desarmante, e só podia ser retribuída à altura.
– Por favor!
Aquilo era, sem dúvida, um RB28 – usava o RB26 do GT-R como base, mas tinha o deslocamento ampliado para 2,8 litros em vez dos 2,6 litros originais. Os dois turbos deram lugar a um só e certamente havia mais segredos ali.
– Tem uns 700 cv aí, mas ainda há espaço para melhorias. O Fusca do Peter está começando a me dar trabalho. Quer dar uma volta?
Era óbvio que o Agente queria dar uma volta. Mas ninguém podia saber disso.
– Quem sabe na próxima. Hoje, não. Obrigado.
Até porque ainda faltava um membro da “equipe”.
Ele ainda não havia saído de dentro do carro – não que precisasse, pois não havia teto ou janelas, apenas um para-brisa. As rodas enormes com pneus extremamente borrachudos saltavam para fora, como nos monopostos de outrora, e ficavam quase totalmente descobertas. Dentro, apenas um banco concha (havia espaço para outro, porém ocupado por uma mochila velha), volante, alavanca de câmbio, pedais e um conta-giros. Nada de velocímetro, luzes-espia, nem nada do tipo.
– O Colin não fala muito, mas a gente pode contar com ele para tudo. É ele quem cuida dos nossos carros. Tem um dedo dele em todos os nossos projetos – informou Charlie. – E ele construiu esse Locost sozinho. Eu não sei de onde ele tirou essa história de Locost, parece até que ele inventou essa coisa. Nunca vi nada assim. E nunca dirigi nada assim, também.
– É claro que você não sabe! Você nunca se preocupou em aprender nada que eu tento te ensinar! E você nunca vai dirigir esse carro!
A voz saía daquele que devia ser o ser humano mais normal dali. Então, virou-se para o Agente.
– Pode me chamar de Colin. Eu percebo que você é um cara que entende das coisas, então você deve saber por que eu escolhi esse nome.
– Colin Chapman, não é? Parabéns! Ficou muito bem feito.
Era engraçado, porque o homem se parecia mesmo com Colin Chapman — a calvície que desistiu faltando metade do trabalho, o bigode mais fino que o ideal e um sorriso que dizia “eu não engano ninguém”. Uma jovialidade assustadora para quem devia ter seus cinquenta-e-poucos. E nenhum – nenhum – dos outros carros havia chamado a atenção do Agente tanto quanto o Locost. Uma réplica do Lotus Seven, provavelmente o carro que melhor representava a ideia de diversão ao volante. Era sem dúvida o mais fraco dos três, mas também era o carro que o Agente escolheria, se pudesse. Não era novo, estava cheio de marquinhas do tempo, mas… Ah, que coisa bonita!
– O que tem aí?
– Ah, nada muito louco. Tá com motor Honda, um K20 quase original, se tiver 200 cv é muito. Eu sempre fico para trás dos outros, mas não ligo. Me divirto mais que todos eles juntos, pode apostar!
O Agente acreditava. Em instantes, estava se imaginando dentro do Locost, em outro lugar, outra era. Longe do deserto, das retas infinitas. Em uma estrada estreita, cheia de curvas, ladeada por árvores e mato. Para sua sorte, os óculos escuros escondiam o olhar perdido no horizonte e, em poucos segundos, ele já estava de volta à realidade.
– Pensei que seu amigo não falava muito, Carlos. Você podia aprender algumas coisinhas com ele.
– É… mas e aí, o que achou do nosso grupinho?
Aquele provavelmente era o dia mais empolgante na vida do Agente desde que ele havia começado a trabalhar no Quadrante. Era a primeira vez que sua interação com os rachadores quebrava o protocolo e, internamente, ele se perguntava por que havia demorado tanto tempo para deixar isso acontecer.
Por fora, porém, era preciso manter a compostura.
– Eu poderia colocar todo mundo dentro da viatura, que é bem espaçosa, e levar todo mundo para a delegacia. Aliás, era o que eu deveria fazer agora mesmo. É para isso que sou pago. Mas, como o Charlie já sabe, hoje ninguém vai preso.
– Você me chamou de Charlie?
Inabalado, o Agente prosseguiu.
– Vocês têm 10 segundos para entrar nos seus carros e desaparecer da minha frente antes que eu mude de ideia.
Ninguém se mexeu.
– Andem logo! Dez…
Charlie, Peter, Jesse e Colin, como soldados sob o comando de um superior, fizeram exatamente o que o Agente ordenou. O acordar dos motores ecoou pelas pedras do deserto, ouvido por ninguém fora os cinco indivíduos. Em seguida, uma enorme nuvem de poeira e fumaça se levantou e, uma vez dissipada, deixou apenas o Agente e sua viatura autônoma ali. Além das marcas dos pneus no asfalto.
Com um gesto, o Agente abriu a porta de sua viatura e ajeitou-se no banco. Quatro pontinhos no radar denunciavam a posição dos quatro rachadores. Após considerar, por breves segundos, seguir atrás deles, o Agente decidiu seguir seu plano original e encerrar o expediente.
Envolvidos até o pescoço com seus carros de verdade, os quatro sujeitos que o Agente acabara de conhecer sequer imaginavam que sua viatura já havia registrado fotos de seus carros e de seus rostos, identificado seus verdadeiros nomes e até mesmo guardado as coordenadas do galpão secreto – algo extremamente útil naquele deserto enorme cheio de galpões abandonados iguaizinhos àquele.
– Para casa, por favor. Com música.
– Para casa – repetiu a voz sintetizada da viatura, que logo em seguida deu lugar aos primeiros acordes de “Wild Horses”, dos Stones.
A viatura não tinha ronco e o isolamento acústico era simplesmente perfeito. A melancolia da canção ajudaria o Agente a se recompor, a baixar sua adrenalina. Mas também o faria pensar.
Havia um bom motivo para aqueles caras viverem como viviam, torrando até o último centavo de seu dinheiro – e, bem, o dinheiro do pai de Charlie – com máquinas velhas, banidas e cheias de tecnologia antiga e proibida.
A Cidade Branca despontou no horizonte quando o crepúsculo se abateu sobre o deserto. As luzes começavam a se acender, e o cheiro daquele ambiente estéril e organizado já se fazia sentir. Em poucos minutos, a viatura parou à frente do edifício onde ficava o apartamento do Agente, abriu a porta e o deixou em casa. Antes de fechar a porta, o Agente ainda conseguiu ouvir o discreto zunido de seu veículo partindo, sem ninguém dentro, em direção à Divisão de Interceptação e Captura.
Enquanto o elevador subia, o Agente checou o relatório de patrulha no seu terminal de pulso. Esperava ver os alertas automáticos de “Apreensão de Alto Risco” gerados pela IA da viatura. Em vez disso, a tela exibiu algo que ele nunca havia visto: “Quadrante Limpo. Zero ocorrências. Arquivo Corrompido – Descarte Automático Inicializado.”
O Agente piscou, incrédulo. Tentou puxar as imagens do galpão do Charlie que a viatura havia escaneado, mas uma sinistra tela preta — mais uma ocorrência estranha — foi tudo o que ele conseguiu.
O cheiro metálico do combustível talvez estivesse confundindo seus sentidos. Mas uma impressão de que algo aconteceu nos bastidores enquanto ele se entretinha no ninho dos ratos insistia em ficar cada vez maior.
Era impressionante como tudo ali funcionava direito, em perfeita ordem, sem confusões ou atrasos. A viatura nunca ficava sem energia. O elevador nunca quebrava. A geladeira estava sempre cheia – quando identificava que algo estava acabando ou perto de vencer, fazia uma compra pela Rede imediatamente e o Agente só precisava agendar a entrega. Toda a informação do mundo estava acessível a qualquer momento, em qualquer lugar. Contratempos eram raros, e as preocupações todas vinham de dentro.
Aqueles caras, porém, pareciam ter aversão àquilo tudo. Estavam no controle de suas próprias vidas, ao menos quando dirigiam seus carros, sujeitos a problemas mecânicos, falta de combustível e, claro, aos seus próprios erros ao volante. Mas era perceptível que todos eles eram felizes. Ao menos quando dirigiam seus carros.
Mas havia outro detalhe — uma brecha deliciosamente óbvia atingiu o Agente no peito com o peso de duas toneladas.
A Cidade Branca era a definição de eficiência absoluta. Não havia desperdício de energia, não havia erro de logística, não havia pontas soltas. O Sistema que ele servia, aquele que otimizava cada watt de energia consumido em um apartamento, jamais permitiria a existência de uma anomalia tão ruidosa, tão poluente e tão destrutiva quanto aquele galpão no deserto. Se o Sistema era capaz de deletar as provas de que aquele local existia, ele era perfeitamente capaz de deletar o local inteiro. Ele tinha o poder para isso.
Mas não o fazia.
A conclusão foi um soco no estômago: a existência preservada daqueles carros não era uma falha de fiscalização. Era uma funcionalidade.
Talvez o sistema não cortasse o mal pela raiz por incapacidade, mas por necessidade. Aqueles caras, com seus motores ineficientes e barulhentos, talvez não fossem rebeldes tentando destruir a ordem. Eles estavam muito mais para engrenagens involuntárias e ignorantes de uma máquina ainda maior. Enquanto se divertiam com toda a pose e orgulho de quem estava burlando um sistema infalível, na verdade eles serviam a um propósito que a Fabricante não podia admitir em público, algo que exigia que alguém, lá fora, continuasse brincando de gato e rato. O Agente, ali, cumpria uma dupla função que não parecia fazer sentido: rastrear os sujeitos e mantê-los em movimento. Ele os caçava, prendia-os, e o sistema — sempre o sistema — reduzia tudo aquilo a uma simples notificação de multa que os deixava livres em horas. Era frustrante. Um esforço colossal de sua parte para um resultado que parecia, no fim das contas, apenas uma taxa de manutenção de lixo.
Sem querer, o Agente descobria qual era a pergunta que deveria fazer: por que seu emprego ainda existia?
Aquele refém da nostalgia não era o herói que prendia criminosos. Ele era o zelador de um sistema que tinha naquele deserto um elemento crucial. O bando do Charlie não estava escondido da Fabricante. Aqueles ratos do deserto estavam sendo mantidos sob uma coleira invisível, ocupados e felizes, enquanto cumpriam uma função cuja natureza escapava a eles próprios e, vergonhosamente, dele mesmo.
Para entender exatamente do que se tratava, então, o Agente precisava voltar para o bunker.
Ele olhou para o console em seu pulso. A tela preta ainda zombava de sua investigação silenciosa. A revolta, que antes era uma faísca, agora virava um incêndio. Mas havia uma inescapável euforia misturada àquele sentimento.
Atendendo a pedidos, eis o retorno da série de ficção científica entusiasta “O Agente”, criada pelo Dalmo Hernandes em um momento de particular inspiração. Cinco anos depois, esse recomeço está mais para um reboot, revisado e reescrito em alguns momentos para deixar tudo mais coeso. Confira as partes anteriores nos links abaixo!
The story so far…
O Agente – Parte 1
O Agente – Parte 2
