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O “carro velho” enquanto manifesto

O “carro velho” enquanto manifesto

Certas perguntas não têm resposta objetiva, por mais que a gente precise ou queira. Devo comprar um carro agora? Existem milhões de respostas diferentes possíveis — uma para cada indivíduo que eventualmente possa perguntar. Mas se a gente for devolver com outra pergunta, aí só existe uma resposta possível. Você quer, e você pode? Então sim, compre.

“Legal, mais uma reflexão sem sentido do Dalmo. Great.” Calma, vem comigo.

Quando a gente vai comprar um carro usado — essa realidade chata que insiste em ser a única possível para muita gente — existem algumas regrinhas de ouro. Veja bem, elas não precisam ser seguidas à risca. Mas juntas, formam um norte muito sólido: procure um carro com até dez anos de uso, que idealmente não se afaste muito dos 60.000 km rodados e que tenha registrado todo o histórico de manutenção. E nada muito exótico, também.

Parece uma cartela de bingo irritantemente difícil de completar. E, sendo realista, não dá para esperar que alguém que realmente precisa de um carro só vá fechar o negócio quando tudo isso se alinhar.

O problema é que a gente não está nos Estados Unidos ou na Inglaterra, países em que ainda é possível encontrar um carro rodando e com a documentação em ordem por menos de quatro dígitos (o mundo mudou, sim, mas nem tanto). No Brasil, comprar um carro sendo um adulto responsável, com obrigações, contas para pagar e, em boa parte dos casos, família para sustentar, é um passo importante com repercussões reais e imediatas em todos os aspectos da vida, em maior ou menor intensidade.

O lado bom da subida de nível que os carros deram nos últimos anos é que, se o seu orçamento está ali entre os R$ 80 mil e R$ 100.000, existem opções excelentes no mercado de seminovos e usados — os carros modernos nunca foram tão bons, confiáveis e bem equipados por esse preço. Não é pouco dinheiro, mas é o novo piso do “carro usadinho bacana por preço de carro zero” aqui no Brasil. Só que mais uma lamúria em meio a milhares de outras lamúrias não vai mudar essa situação, então sigamos.

Os carros que você pode comprar com essa grana são fantásticos, não dá para negar. Eles têm controle de tração, espelhamento sem fio, motores três-cilindros turbo eficientes e raramente te deixam na mão. À exceção de algumas falhas de projeto pontuais (cof cof, correia banhada a óleo, cof cof), no frigir dos ovos a escolha deixou de fazer diferença há algum tempo. É quase questão de gosto — os zero-quilômetro e seminovos são extremamente parecidos por fora, por dentro e na ficha técnica.

Então, que tal explorar a alternativa? Que tal comprar… um carro velho?

Sejamos honestos: comprar e manter um carro mais velho, paradoxalmente, nunca foi tão fácil como hoje. Mesmo que vasculhar os fóruns de internet seja o equivalente digital a escavar um sítio arqueológico sem qualquer garantia de que você vá encontrar algo valioso, ainda existe uma base de conhecimento sólida e muito vasta online. E encontrar peças também ficou bem mais prático — sair peregrinando pelos ferros-velhos da região é mais questão de gosto do que de necessidade. Então por que não abraçar essa possibilidade e arrumar alguma coisa para se incomodar?

Uma consequência cruel da passagem do tempo é se dar conta de que o carro velho de hoje não é o Fusca, o Corcel, ou o Chevette. É o primeiro Corsa EFI, é o Gol bolinha, é o Civic com motor D16. O Corolla do Lineu Silva. Isso é melancólico, mas também é libertador. Porque, para quem tem GASOLINA NAS VEIAS, só quer dizer que o leque de possibilidades cresceu exponencialmente.

Você talvez ainda esteja acostumado com a noção de que a maneira correta de ter um carro velho passa apenas por dois caminhos: A) comprar um clássico e restaurá-lo de volta à originalidade ou B) comprar um clássico e fazer dele um projeto de alto nível, com modificações coerentes a fim de deixá-lo mais bonito, mais confiável e mais rápido (o tal do restomod). Mas existe uma terceira via, um caminho do meio: colocá-lo para rodar e se concentrar em mantê-lo rodando com tranquilidade segurança pelo maior tempo possível, sem se preocupar muito com o resto. Sem neura com originalidade, sem se preocupar em obedecer a um estilo ou gênero de projeto. Acho que a gente já passou dessa fase, e digo isso com uma pontinha só de melancolia.

Aqui mesmo no FlatOut a gente explorou bastante estilos de modificação e cenas de preparação. Temos mais de 13 MIL matérias publicadas ao longo de mais de uma década, e uma porção considerável de matérias que explicam as raízes e características de um VEB (Velha Escola Brasil), de um low rider ou, indo para o mundo das motos, a diferença entre uma brat, uma cafe racer e uma scrambler. E essa categorização, claro, tem seu valor, porque diz respeito à história de determinado grupo, à identidade coletiva de um local, e até ao heritage de marcas específicas. E a tradição, claro, é importante. Manter a o legado vivo, preservar a memória, esse tipo de coisa.

Mas olhe ao redor. Dê uma vasculhada pelas notícias. Não é como se eu precisasse apontar porque você sabe que hoje, o grande debate ainda é a respeito da Grande Eletrificação que nos prometeram para o fim dessa década, e agora a Porsche diz que talvez tenha sido cedo demais para o Taycan. A Europa decidiu pisar no freio quanto ao banimento. A BYD, que no Brasil carregou o bastão dos elétricos nos últimos tempos, agora decidiu apostar em híbridos.

E isso também vale para outras grandes mudanças que vieram antes. O câmbio manual morreu, não é? Mas o grande anúncio da Subaru nesta semana, feito com bastante alarde na beira da pista em Fuji Speedway, foi o de três novos carros com câmbio manual, incluindo um modelo totalmente novo com foco entusiasta e acessível. E você percebeu como os carros autônomos, que até pouco tempo atrás inundavam o feed de notícias com promessas de transformar o motorista em passageiro (só para, na notícia seguinte, ter esse delírio destruído por um acidente sem culpado), foram saindo de fininho e hoje quase não se fala mais no assunto? Pois é.

Sendo idealista e sonhador por um momento (traduzindo: eu sei que cada um tem sua vida e seus problemas com grana, espaço físico na garagem e mais uma infinidade de outras questões, mas deixemos isso de lado um pouco), o clima está propício para que cada um de nós faça sua parte e adote um carrinho velho. Não estou falando de um clássico que só vai valorizar, nem de um antigo daqueles bons de verdade, idolatrados com todos os motivos para isso. Porque, nos dias de hoje, comprar qualquer carro velho vai te permitir experimentar o purismo mecânico. Qualquer um, mesmo. Até o piorzinho deles, o mais anônimo, o mais medíocre, vai te dar mais emoção e histórias para contar que um seminovo extremamente competente, porém sem qualquer vestígio de alma e coração.

Sendo assim, para viver essa experiência em sua plenitude, é vital se despir de expectativas e abandonar por completo qualquer pretensão de montar um projeto instagramável, original ou modificado — porque se você for concentrar seus esforços em um seis-em-linha lendário, um V8 clássico ou um Fusca preparado, seu piso vai saltar para os R$ 150 mil e é exatamente esse o caminho que eu quero que você evite.

A ideia é resgatar o lado mecânico e analógico que qualquer carro mais velhinho pode te oferecer. É aproveitar todos os dias as pequenas interações que a indústria atual decidiu anestesiar. É vivenciar a conexão física e imediata de um acelerador por cabo, onde a borboleta abre no exato milésimo de segundo em que seu dedão do pé direito se move — sem o lag eletrônico que tenta salvar o planeta a cada arrancada. É sentir o estalo seco de um relé de verdade desarmando atrás do painel, e não um bipe digital sintetizado por um alto-falante. É girar uma chave física no tambor de ignição e sentir o motor de arranque dar duas ou três voltas pesadas antes de o motor pegar.

O momento em que a ficha cai e você percebe que já avançamos um quarto do século 21 é melancólico, mas também é revelador. Porque é quando a gente se dá conta de que dá para voltar ao passado em um carro relativamente moderno, confiável e equipado. É gostoso perceber como a passagem do tempo altera a percepção das coisas, porque a gente pode procurar, sei lá, um Ford Focus dos primeiros com motor Zetec ou um Chevrolet Astra 1.8 e, com sorte e paciência, colocar na garagem um carro confortável, equipado e que, ainda assim, vai nos devolver o feedback honesto do asfalto.

E não me venha falar em dinheiro jogado fora. Existe uma camada meio heroica, quase de utilidade pública, nesse plano. Se você não comprar aquele espécime sobrevivente, quem vai salvá-lo? Ele provavelmente vai acabar no pátio de um desmanche, rebaixado até raspar no asfalto com rodas réplicas de gosto duvidoso, ou esquecido embaixo de uma árvore até virar paisagem. Adotar essa terceira via é prestar um serviço à cultura automotiva nacional. É salvar um patrimônio histórico — mesmo que a certidão de nascimento dele diga que ele é só um hatch médio dos anos 2000.

No fim das contas, eu sei o que você está pensando. Toda essa ginástica mental, essa costura de geopolítica da indústria com nostalgia barata, é só uma forma elaborada de eu justificar para mim mesmo a busca por um carro velho para colocar na minha garagem. E é verdade. O que eu estou fazendo aqui é tentar arrastar você, leitor incauto, para o fundo do mesmo poço de graxa e decisões financeiras questionáveis onde eu me encontro.

A vida é curta demais para a gente passar os próximos dez anos isolados do mundo por vidros acústicos, assistentes de permanência em faixa e motores que não queimam combustível e não funcionam de explosões. Se a indústria está pisando no freio e percebendo que a conexão humana ainda importa, quem somos nós para discordar? Vai lá, abra uma aba nova no navegador. Escolha seu veneno dos anos 90 ou 2000. O guincho a gente resolve depois.

Fonte original FlatOut
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