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Por que “Carros” envelheceu tão bem?

Por que “Carros” envelheceu tão bem?

Em 2006 o mundo era um lugar bem diferente de hoje — e isso, claro, inclui os automóveis. Uma rápida viagem no tempo: o carro mais rápido e mais potente do mundo era o recém-lançado Bugatti Veyron, e um motor W16 de oito litros, quatro turbos e exatos 1.001 cv era o ápice da engenharia do exagero. A eletrificação em massa parecia um sonho — ou pesadelo — distante. O carro mais barato do Brasil era o Fiat Mille, que havia acabado de perder o nome “Uno” e entregava competência, claro, mas um nível de frugalidade impensável para os padrões atuais. O piloto mais promissor da Fórmula 1 era Fernando Alonso, que ainda tinha vontade de viver e conquistaria seu segundo título no final da temporada — e o maior do mundo ainda era Michael Schumacher, que estava para se aposentar pela primeira vez e ainda tinha gasolina no tanque para obter seu último pódio, o de número 68, no GP da França. E o FlatOut ainda levaria quase uma década para começar a existir.

E este falastrão que vos escreve, aos 15 anos, estava no auge da paixão juvenil pelos carros. Gran Turismo 4 ainda era um jogo recente e eu sequer tinha colocado minhas mãos nele — as tardes livres depois da escola eram inteiramente dominadas por Gran Turismo 2 e minha obsessão por completar a garagem. Nem ao menos pensava em tirar carteira de motorista, porque — vejam que ironia — ainda faltavam 3 anos para ter idade. O tempo passa muito, muito rápido.

E foi no ano de 2006, exatamente no dia 9 de junho, que foi lançado “Carros”, da Disney-Pixar. Que até hoje, 20 anos depois, segue sendo um dos melhores filmes já feitos para quem curte carros. “Carros” é uma carta de amor para a cultura entusiasta disfarçado de película infantil.

Mas me atrevo a dizer que essa não é a melhor coisa a seu respeito.

A estreia de “Carros” aconteceu dias antes de outro filme que é um grande retrato da época — “Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio”, que encerrou a trilogia clássica. E talvez alguns pensem que, sendo um filme live action com carros de verdade, talvez o terceiro “Velozes” fosse mais merecedor de uma pequena homenagem como esta aqui. Mas são mundos diferentes que não se excluem. E, aproveitando para, mais uma vez, transformar o FlatOut em um espaço público de reflexões particulares, confesso que tenho mais carinho pela animação da Pixar.

“Carros” começa com os primeiros acordes do country rock Real Gone — uma canção cujo gênero não está entre os meus favoritos, mas eu já passei da idade de separar as canções em caixinhas. É uma música tão bem feita que nem parece ter sido escrita e gravada por Sheryl Crow e John Shanks (hoje no Bon Jovi) especialmente para o filme. E “Life is a Highway”, do Rascal Flatts, que rola poucos minutos depois (quando Mack e McQueen partem em direção à Califórnia para a corrida de desempate com o Rei e Chick Hicks), é tão marcante quanto. É a primeira injeção de nostalgia que a gente leva ao dar play no filme duas décadas depois — quando somos imediatamente lembrados de que, em 2006, as guitarras distorcidas ainda ditavam o ritmo da cultura de massa. Não me considero, nem de longe, alguém que parou no tempo musicalmente, mas também sei que não é nenhum crime ter saudade do tempo em que o rock tinha relevância cultural fora do underground. E sim, country rock é — claro — rock.

O filme começa com a final da Copa Pistão, em um mundo no qual seres humanos não existem e as provas nos circuitos ovais dos Estados Unidos, em uma liga análoga à Nascar, permitem que carros de competição modernos dividam o asfalto com clássicos — o Rei é um Plymouth Superbird inspirado (e originalmente dublado) por Richard Petty e o antagonista Chick é um Buick Grand National. E, como sempre foi costume da Pixar, a primeira sequência serviu como demonstração de sua expertise em animação. Em “Carros”, o destaque estava na iluminação — boa parte do esforço da equipe técnica se concentrou em desenvolver modelos de luz dinâmica para reproduzir com perfeição a forma como a luz e as cores do ambiente refletem na carroceria dos carros em tempo real.

É também nos primeiros minutos do filme que outra arma técnica da Pixar fica evidente: o rig universal para cada um dos automóveis que aparecem ao longo da história. Todos os personagens de “Carros” usavam o mesmo “esqueleto” — uma estrutura tridimensional com mais de 100 pontos de controle para garantir que cada modelo de carro se comportasse de uma maneira, porém seguindo as mesmas regras da física e, até onde a premissa permitisse, de forma convincente.

Apropriadamente, dá para pensar no rig como uma espécie de chassi customizável. O principal ganho era na suspensão, que podia ser acertada de maneira individual — o que contribuía para que cada carro reagisse ao piso de um jeito diferente, mas todos de maneira verossímil. “Verossímil” sendo a palavra-chave aqui, já que não dá para falar que um filme no qual os pneus dos carros são como seus membros e todos eles conseguem movimentar bastante a suspensão para realizar ações do dia-a-dia é exatamente realista.

É graças a esse sistema que primeira coisa que impressiona ao rever o filme duas décadas depois não é o brilho da pintura ou a qualidade do render — é o respeito fundamental pela dinâmica. Enquanto outras produções tratavam carros como meros objetos que andam, a Pixar os tratou como atletas. A suspensão trabalha, o chassi torce nas curvas, o motor tem som de motor (e não de liquidificador). Eles capturaram a essência da pilotagem antes mesmo de o protagonista dar a primeira largada. E essa atenção aos detalhes, que separa o amador do entusiasta, é o que garante que, em 2026, Carros ainda pareça uma obra feita por quem realmente entende o que acontece quando você pisa fundo.

Dito isso, a suspensão de descrença — a capacidade que temos de ignorar o senso comum de modo a aproveitar melhor as obras de ficção — trabalha bastante em “Carros”, aliás. A própria natureza dos personagens vai contra qualquer lógica: eles são seres biomecânicos que aparentemente são a forma de vida dominante naquele planeta e que reproduzem o modo de vida e os aspectos culturais da humanidade, e essa ideia trabalha constantemente para desafiar nossa suspensão de descrença. Alguns carros são seres sencientes (com consciência, imaginação, autopercepção) enquanto outros são como animais (os tratores são vacas, o Frank é um touro gigantesco, e os insetos são pequenos Fuscas). Outros veículos também são seres vivos, como o dirigível Al Oft e o trem que quase acerta McQueen logo depois que ele se separa de Mack a caminho da Califórnia.

Quando um filme é bem executado e sua história é bem contada, esse tipo de coisa que gera tantas perguntas é sumariamente ignorado pelo nosso cérebro — paramos de questionar a lógica e aceitamos sem perceber que “é assim e pronto”. E “Carros” faz isso muito bem.

Até porque as referências culturais são muitas e muito bem integradas ao enredo — caindo no velho e eficiente clichê do filme “para crianças” que presenteia os pais com piadas escondidas. Como as irmãs gêmeas Mia e Tia, dois Mazda Miata que acendem seus faróis para McQueen logo depois da corrida que abre o filme, em uma referência clara ao costume que as garotas têm, em especial nos EUA, de se exibir para as câmeras em shows e eventos esportivos — e são prontamente detidas pelos seguranças da pista.

Mas essa é uma das poucas piadas de duplo sentido de “Carros”. O que mais acontece são referências profundas à cultura automotiva e à história do automobilismo — coisas que só quem gosta de verdade de carros e corridas consegue pescar.

E a melhor prova disso acontece quando o sol se põe e a ação se desloca para a rodovia interestadual, no meio da noite. Ali, a Pixar não apenas entrega um dos maiores acenos à cultura pop automotiva daquela década, mas carimba o passaporte de quem viveu o auge das revistas de modificação e das madrugadas virtuais de Need for Speed: Underground.

A gangue dos tunados — Boost, DJ, Wingo e Snot Rod — que inferniza o sono do pacato caminhão Mack é uma caricatura cirúrgica, quase dolorosa de tão precisa, do zeitgeist jovem de 2006. É o festival de neons roxos sob o chassi, aerofólios absurdamente altos que desafiam a própria resistência dos materiais e grafismos tribais que hoje nos fazem sorrir de canto de boca, mas que na época eram a lei das ruas. Há até o contraponto purista americano no Snot Rod, um muscle car clássico com um compressor mecânico gigantesco saltando do capô, cujo espirro mecânico simula com genialidade o retorno de chama de um motor que transborda torque. Para nós, adolescentes criados à base de carros modificados e trilhas sonoras eletrônicas hipnóticas, aquela cena foi a validação definitiva: o filme entendia as ruas tanto quanto entendia os ovais da Nascar.

Mas essa sequência não está ali apenas para agradar a molecada fã de importados. Ela é o gatilho mecânico que move toda a engrenagem do filme. É o cansaço do Mack, induzido por aquela música hipnótica dos tunados, que faz com que Relâmpago McQueen seja ejetado de seu casulo de luxo e lançado na escuridão do esquecimento. A gangue dos tunados que pareciam saídos dos nossos maiores delírios em Need for Speed: Underground só quer se divertir à custa do big rig cansado mas, sem querer, acaba levando McQueen direto para o lugar que mudaria seu jeito de enxergar o mundo para sempre.

E vejam a ironia fina do roteiro: McQueen é o epítome do automobilismo corporativo e moderno. Ele é tão focado no marketing e no topo do pódio que sequer tem faróis de verdade — são apenas adesivos, afinal, como ele mesmo diz, “a pista é sempre iluminada” e o público só precisa vê-lo, ele não precisa enxergar o caminho. Ele é um produto de simulação, rápido e eficiente, mas completamente vazio de vivência. Quando ele se perde na escuridão da velha Rota 66 e vai parar no asfalto castigado de Radiator Springs, o choque cultural é, na verdade, uma dose necessária de humildade. O piloto que repetia “eu sou a velocidade” como um mantra solitário é arrancado de seu mundo perfeito de autódromos e amarrado à Bessie, uma máquina de piche velha, lenta e pesada.

A célebre jornada do herói de McQueen começa no exato momento em que ele é forçado a desacelerar. Para consertar a estrada que ele mesmo destruiu, o jovem campeão precisa aprender a valorizar o ritmo das coisas que não foram feitas para correr. Ele passa a depender do alinhamento do Fiat 500 Luigi, do combustível orgânico do Fillmore (dublado pelo já falecido George Carlin) e da sabedoria enferrujada e inocente do Mate — igual Tomate, só que sem o “to”. Ele descobre, no meio da poeira, que o automóvel é uma extensão da nossa própria humanidade. Mesmo que não existam humanos ali.

Ele fica incrédulo quando descobre que Sally, um (ou melhor, uma) Porsche 911 da geração 996 — outro sinal dos tempos, porque o primeiro 911 arrefecido a água mal tinha sido substituído pelo 997 —, não estava lá porque seu empresário havia enviado uma advogada bonita para salvar sua pele. Era era uma moradora de Radiator Springs, tão apaixonada pela cidadezinha como todos aqueles outros caipiras malucos.

Sally, aliás, teve sua personalidade toda inspirada por uma personagem do mundo real: Dawn Welch, dona do Rock Café na Rota 66 de verdade, em Oklahoma. O lugar havia sido destruído por um furacão de nível F3 em 1999 e, quando a crew de “Carros” passou por lá enquanto fazia pesquisa de campo na estrada, o local ainda estava no meio da uma reforma, se recuperando do desastre. Dawn se recusava a abandonar o local, que havia comprado poucos anos antes, e acabou se tornando um símbolo de resistência. Sally era uma advogada bem sucedida em Los Angeles mas se apaixonou por Radiator Springs — e ela fez de tudo não só para incentivar seus moradores a continuar vivendo e trabalhando no local depois que a Interestadual fez com que a cidadezinha saísse do radar dos turistas, mas também para que McQueen enxergasse o valor naquele lugar e naquelas pessoas. Ou melhor, naqueles carros.

Mas agora eu vou me contradizer. Porque, em seu miolo, “Carros” é na verdade uma ode ao passado glorioso das viagens de carro. É um lamento romântico sobre como a obsessão humana pela velocidade e pelo pragmatismo nos cegou para a jornada. As autoestradas rasgaram o mapa para economizar dez minutos, mas isolaram as pessoas do mundo real. Radiator Springs não morreu porque ficou velha. Morreu porque o mundo moderno desaprendeu a contemplar o caminho.

Essa noção é sugerida várias vezes desde o começo, até mesmo na simples projeção da sombra de Mack na beira da estrada mudando de tamanho enquanto cruza a paisagem árida e cheia de pedregulhos da rodovia no deserto americano. Na visita do casal de minivans a Radiator Springs, com o marido insistindo em não precisar de um mapa enquanto sua esposa está louca para visitar a loja de bugigangas do Sargento (um Jeep Willys MB veterano da Segunda Guerra Mundial). Mais adiante, no momento em que a cidade finalmente conserta a fiação e reacende os neons ao som de Sh-Boom — o que acontece ali é a reconstituição do clássico cruising de fim de semana. Aquele hábito puramente analógico dos anos 1950 e 1960 de tirar o carro da garagem no sábado à noite sem destino algum, apenas para rodar lentamente pela avenida principal, ver os amigos, ouvir o motor funcionar e gastar gasolina pelo simples prazer de estar ao volante.

O fato de inúmeros personagens serem referência ao mundo dos carros e tudo que os envolve — Jeremy Clarkson no papel do empresário Harv, que nunca mostra o rosto (e que no Brasil ganhou a voz do lendário Guilherme Briggs), Jay Leno representado por um igualmente queixudo carro apresentador de TV, as montanhas ao redor de Radiator Springs que são uma versão natural do Cadillac Ranch em Amarillo, Texas — já foi mencionado e escrutinizado em inúmeras matérias nos últimos anos, e ficar batendo nessas teclas seria redundante a essa altura.

Da mesma forma, já discorreu-se um sem-número de vezes à referência de Doc Hudson no mundo real — o fabuloso Hudson Horned existiu de verdade, e de fato era uma lenda nos ovais de terra que deram origem à Nascar. A parte técnica da derrapagem controlada que ele ensina a McQueen depois que o carro vermelho o convence de que não é um ser tão desprezível assim é icônica, claro, mas não é a parte mais profunda da história. É uma baita homenagem mas, vinte anos depois e com vontade de analisar as coisas mais a fundo, é outra parte de “Carros” que me encanta.

Falo da subversão da tal “jornada do herói”. McQueen começa muito perto do topo e, por uma decisão estúpida — não trocar os pneus, só abastecer — condena a si mesmo a cair de cabeça naquilo que, em sua visão, era o fundo do poço: perceber que ele não era o centro do mundo.

A redenção de McQueen não se consolida quando ele finalmente domina o contraesterço na pista de terra sob os olhos severos de Doc Hudson, mas sim quando ele retorna ao asfalto reluzente da grande final e descobre que o troféu da Copa Pistão — aquela taça vazia que ele tanto cobiçava — não significa absolutamente nada sem um propósito real. O clímax do filme, com o carro número 95 cravando os freios a metros da linha de chegada para voltar e empurrar o destroçado Plymouth Superbird do Rei, é o xeque-mate dramático da Pixar.

McQueen passou o filme inteiro tentando fugir de Radiator Springs para garantir a vitória e o patrocínio da Dinoco, mas em algum lugar no caminho aprendeu que havia algo maior. Então, ele abre mão e tudo isso no último instante para honrar o legado de uma lenda ferida. Em poucos instantes, ele destrói o egoísmo que ditava sua vida. Ali, o automobilismo deixa de ser um negócio frio de cifras e patrocinadores e volta a ser sobre o que sempre deveria ter sido: respeito, dignidade e a própria alma da competição.

Essas coisas não têm prazo de validade. O mundo era bem diferente quando “Carros” foi lançado, em 2006, mas nada no em seu enredo é datado ou denuncia sua idade. Ao contrário: a mensagem maior é atemporal.

É claro que que olhando para trás hoje, em 2026, com o a indústria imersa em telas digitais onipresentes, comandos por voz e um isolamento cada vez maior entre o motorista e a via, “Carros” ganha um peso quase profético. O filme se transformou em uma preciosa cápsula do tempo analógica, um lembrete visual e poético de por que nós, entusiastas, nos apaixonamos por essa amálgama de metal, borracha e combustão. Tenho certeza de que muitos que estão aqui hoje, lendo esse pequeno elogio, talvez sequer pudessem dirigir legalmente quando o filme estreou. A gente cresceu assistindo “Carros”. Formou família, escolheu uma profissão. Alguns lidam com carros para ganhar a vida e eu aposto que, mesmo que só um pouco, o clássico da Pixar tem um dedo nisso.

Vinte anos depois, uma animação que tinha tudo para ficar de canto, como um produto infantil de prateleira, continua sendo o manifesto definitivo de que o automóvel nunca foi um mero eletrodoméstico para nos deslocar com pragmatismo entre dois pontos. Ele é, e sempre será, o companheiro de jornada. E a viagem, como a própria Sally nos ensinou no topo daquele cânion, é tudo o que realmente importa.

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Fonte original FlatOut
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