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Por que você precisa participar de um rali de regularidade?

Por que você precisa participar de um rali de regularidade?

Por muito tempo, eu detestei ver o sol nascer na rua. Achava um pouco deprimente aquela luz fria da aurora — me trazia uma sensação incômoda como um lembrete de uma noite fracassada, que terminou tarde demais. Ou cedo demais. Mas o tempo passa, a gente amadurece e a perspectiva muda. Aprendi a apreciar o nascer do sol, especialmente quando passei a trabalhar das 6h às 14h. Desde então, aquela transição da noite para o dia ganhou um novo significado. Hoje, ver o raiar do dia na estrada tornou-se um daqueles pequenos e genuínos prazeres da vida.

E naquele fevereiro de 2022, lá estava eu, apreciando justamente esse espetáculo. Cruzei o Vale do Paraíba com aquela composição típica da região: os raios de sol vazando pelas bordas da Serra do Mar, enquanto a Serra da Mantiqueira ainda estava sob o céu escuro. No meio, o degradê do laranja para o roxo escuro. Eu estava indo a São Paulo, encontrar o MAO antes das sete da manhã para minha missão daquele sábado: ser o navegador da equipe FlatOuter de Rally Clássico.

O cenário não poderia ser mais emblemático: o centro histórico de SP, com o Theatro Municipal ao fundo, servindo de moldura para um grid impressionante.

Não foi difícil encontrar o MAO — afinal, quem mais tem um Chevette azul daquele? — mas o que realmente chamava a atenção era a variedade de carros. Em qual outro lugar você alinha lado a lado um Porsche 911 dos anos 1970, um Mercedes-Benz 190SL 1959, uma Ford F-150 Ranger dos anos 1970, um Toyota 4Runner 1993 e um Alfa Romeo 145 Quadrifoglio?

Isso sem contar os Fusca, Brasilia, Puma, Opala, Maverick e Mercedes dos anos 1970 a 1990. Estava claro que o rali de regularidade de clássicos era mais que uma competição. Era o antídoto definitivo para aquela cultura dos clássicos de garagem, que saem apenas para encontros de antigos e voltam para debaixo de suas capas.

Depois de ver de perto cada um dos carros, entrei no Chevette e fomos para a fila de largada.

Sabe aquela famosa frase reflexiva: “Qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?” Pois então. Aquele sábado foi uma destas vezes. Eu nunca havia participado de um rali de regularidade na vida. Obviamente eu sabia como a engrenagem funcionava — o nome, afinal, é autoexplicativo: você precisa manter uma velocidade média predeterminada em cada trecho, passando pelos postos de controle no tempo exato. Se passar mais cedo, soma pontos. Se passar mais tarde, também. Quem tem menos pontos ganha.

Mas entender o conceito é como ler uma receita de bolo. O fato de você saber quais ingredientes vão na massa e o tempo de forno não significa, nem de longe, que você sabe fazer o bolo. A prática é um bicho completamente diferente.

Sentado no banco do carona, a apreensão tomou conta. Como bom marinheiro de primeira viagem, tentei compensar a falta de experiência com excesso de equipamento. Eu estava armado até os dentes — levei prancheta, calculadora, cronômetro, aplicativo do rali no celular, caderno de navegação no colo, cronômetro reserva, duas canetas. Eu estava preparado para tudo.

Na primeiríssima curva do roteiro, ainda sob a sombra dos prédios históricos do centro de São Paulo, eu errei a orientação da planilha. Pronto. Com menos de dois minutos de prova, nós já estávamos perdidos.

Olhei para o lado, olhei para a planilha, olhei para o relógio correndo. É aquela hora em que você fica apreensivo, meio sem reação e pensa: “Acabei com o nosso rali”. Mas o automobilismo tem dessas coisas. O rali clássico não é um sprint de 100 metros; é uma maratona mental. Sabendo que ainda tínhamos algumas horas de estrada pela frente e uma centena de quilômetros para rodar, engoli o orgulho, recalculei a rota mentalmente e foquei no que importava: haveria tempo de sobra para me adaptar, pegar o ritmo da planilha e nos recuperarmos. E foi exatamente o que fizemos.

Passado o susto inicial, as coisas começaram a se encaixar. Ao longo do trajeto, nós nos acertamos. É uma sensação fantástica quando você finalmente se envolve com a cronometragem e a navegação. Você acaba genuinamente absorvido pelas “tulipas” e pelas instruções de tempo. O mundo exterior desaparece; vira você, o papel e o hodômetro e os poucos metros à sua frente.

O limitador de velocidade

A minha dinâmica com o MAO ganhou uma camada extra de diversão: controlar o ímpeto dele. “Não pode andar mais rápido?”, perguntava ele, brincando. Minha função ali passou a ser um misto de navegador e limitador de velocidade, mandando ele segurar o Chevette para cravarmos o tempo correto.

À moda antiga

O grande trunfo desse jogo é onde ele é jogado. Esqueça as rodovias modernas e entediantes, com dezenas de faixas, retas infinitas e um bando de gente apressada correndo do ponto A ao ponto B e freando repentinamente com medo de radar. O rali de regularidade é, na essência, uma viagem à moda antiga.

O roteiro nos joga para as estradas secundárias e vicinais, aquelas que cortam o coração das pequenas cidades. Passamos por lugares que foram esquecidos no mapa quando a rodovia principal, mais rápida e moderna, foi construída. Lembra de Radiator Springs em “Carros”? É mais ou menos isso.

Além dessa imersão cultural no interior real, o rali nos presenteia com o que todo gearhead busca: verdadeiros paraísos de asfalto. Estradinhas sinuosas, vazias, que somam um traçado extremamente divertido a vistas deslumbrantes. Você não está ali para abusar do seu carro, mas para curtir a dinâmica da direção clássica em um cenário de cinema. É um misto de contemplação e diversão ao volante.

Infelizmente, por uma série de razões daquelas que a vida impôs, eu não pude continuar na função de navegador do MAO. Fui substituído brilhantemente pelo Gui Moreira — que, justiça seja feita, conseguiu controlar o ímpeto do piloto muito melhor do que eu. Se não me engano, eles até beliscaram algumas medalhas ao longo daquele ano.

Meu substituto Guilheme e o MAO

Eu só voltaria a alinhar em um rali de regularidade quatro anos depois, em abril de 2026. E voltei com o automóvel mais inadequado possível para um evento que carrega “Clássico” no nome: um Volkswagen Tiguan de terceira geração, novinho em folha, com menos de 2.000 km no hodômetro.

Como a ordem de largada nesses eventos é estritamente cronológica — do carro mais antigo para o mais recente —, fomos os lanternas do grid. Largamos em 74º lugar entre os 74 carros participantes. Sim, o grid tem 74 carros mesmo. Mas a maior novidade não estava no motor TSI sob o capô, e sim no banco do carona: a Ju, minha esposa, assumiu a prancheta. Era o primeiro rali dela e, com a sagacidade típica das mulheres, ela entendeu a lógica das tulipas e do tempo muito mais rápido do que eu.

Desta vez eu não me perdi. Pelo menos não na largada. E preciso fazer uma confissão secreta aqui: eu achei que tinha encontrado o código da trapaça para vencer o rali de regularidade usando a tecnologia moderna da qual os demais competidores não dispunham.

Eu e o Tiguan #74

Olhei para os comandos no volante e pensei: “Ora, se o segredo é manter a velocidade rigorosamente estável, basta eu sincronizar a velocidade do GPS com a do painel, ativar o Cruise Control Adaptativo do Tiguan e deixar as ECU trabalharem por mim”.

A dinâmica parecia perfeita. A Ju cantava a velocidade do trecho da planilha, eu dava dois cliques no volante para ajustar o sistema e o carro fazia o resto. O plano era infalível.

Até que eu me dei conta que a tecnologia não tem o “feeling”. A ECU não mantém a velocidade 100% cravada em subidas e descidas acentuadas de serra. Segundo, bastou um carro comum de rua entrar na nossa frente para o sistema frear o Tiguan sozinho e retomar o ritmo com uma tranquilidade desesperadora para quem está brigando por segundos. Desativei o sistema. Meu plano infalível falhou. O jeito foi dirigir à moda antiga, com sensibilidade e atenção.

Com o SUV novamente sob o controle humano, cruzamos as estradas do sudeste paulista, na parte baixa da Serra do Mar. E ali o rali se justificou novamente. Rodamos mais uma vez por estradas panorâmicas, deliciosas de se dirigir. Esse é, para mim, o maior trunfo do rali clássico. Como a organização precisa fugir do fluxo pesado das rodovias principais, os roteiros nos forçam a entrar em rotas alternativas fantásticas, pacatas e moldadas para quem gosta de dirigir. São caminhos que você normalmente não pegaria em uma viagem comum, afinal, na vida moderna o tempo está sempre fugindo da gente e escolhemos sempre a rota mais rápida (e mais sem graça). O rali é a desculpa perfeita para gastar o tempo naqueles lugares.

O mais legal é que essa imersão não acontece em um passeio informal de fim de semana. Estamos falando de um campeonato oficial, chancelado pela federação de automobilismo — nesse caso, a Federação de São Paulo (FASP) — com cronometragem oficial, divisão rigorosa por categorias (o que permitiu ao nosso Tiguan moderno competir de igual para igual na categoria dele) e, claro, a premiação e pontuação no campeonato.

Com isso, o rali de regularidade também quebra o mito de que o automobilismo sancionado é um esporte elitista, perigoso ou solitário. Claro, não se compara ao automobilismo de velocidade, mas você pode conquistar um título oficial de automobilismo usando o carro da sua garagem, em um fim de semana ensolarado, com a sua família a bordo.

O que realmente importa

Lembra que eu disse que não havia me perdido na largada? Pois é. Guardei a cota de erros para o final. O rali de regularidade tem uma dinâmica fascinante: ele te abraça como um passeio relaxante, mas te pune se você esquecer, por um segundo sequer, que está em uma competição. Exige atenção constante, sintonia fina entre piloto e navegador, e uma leitura impecável do ambiente.

E eu, como um bom hiperativo, perdi a concentração por alguns bons minutos.

Depois de uma parada estratégica no Mirante do Monte Serrat, em Santa Isabel/SP, o relaxamento pós-pausa cobrou o seu preço. Perdi uma referência crucial de navegação na planilha. Confiante (e errado), peguei a esquerda em um cruzamento e saí completamente da rota oficial.

Quando percebemos o erro, tentamos voltar e recuperar o prejuízo, mas o rali de regularidade é implacável com o tempo perdido; uma vez que você se atrasa tanto quanto o nosso desvio, a matemática joga contra você e os postos de controle (PCs) ocultos vão triturar a sua pontuação. Engoli o orgulho de competidor, lamentei por alguns segundos, olhei para a Ju e decidimos que, em vez de nos estressarmos caçando tulipas perdidas no mapa, seguiríamos diretamente para a linha de chegada.

Sob o ponto de vista estritamente competitivo, minha segunda participação no rali foi um desastre retumbante. Nossa pontuação final provavelmente parecia um número de chassi.

Mas quer saber? Eu não estava nem aí.

Mentira. Eu fiquei frustrado por ter errado tão feio em Santa Isabel, mas apesar do fracasso na planilha em termos de diversão ao volante, aquele sábado foi uma grande vitória. Porque um rali destes, com tantos participantes, com tantos carros diferentes, reunidos para celebrar o automóvel, a cultura automobilística, é o que realmente importa. Dirigir por dirigir, por que gostamos disso — seja em um Galaxie, em um Mustang 1970 ou em um Tiguan 2026.

É bem provável que você tenha um carro antigo na garagem, um neoclássico, um “youngtimer”, ou simplesmente um carro comum que você adora e pelo qual você sente orgulho. E você também deve pensar que poderia curtir mais seu carro, tirar ele do trânsito e “esticar as pernas”, sem grandes compromissos como uma revisão completa antes de entrar na pista, ou o risco inerente aos track days.

O rali de regularidade resolve essa equação perfeitamente. Ele te dá segurança, pois acontece com velocidade controlada, ele é acessível, porque não exige nada além dos itens obrigatórios de todo carro, e te traz o senso de comunidade — onde um Porsche 911 Targa 1975 divide o espaço e o respeito com um Fiat 147 1977. Isso, claro, além da chance de transformar sua curtição sobre rodas em um programa de família — você não quer bancar o Riccardo Patrese ou o Augusto Farfus com sua esposa (não é mesmo, Dona Ju?).

Minha folha de tempos de abril de 2026 não vai para nenhum quadro na parede, mas a memória de cruzar as estradas vicinais da Serra do Mar, rindo dos erros e curtindo o asfalto, fica guardada. Na próxima vez que abrir a inscrição do Campeonato Paulista Rally de Regularidade (ou qualquer outro que você tiver a chance de participar), não pense duas vezes. ICole o adesivo na porta, pegue a prancheta e vá rodar. É para isso que seu carro foi feito, afinal.

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Fonte original FlatOut
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